Fantasia


POR LAURO PINTO

A Tessália é uma vasta região ao norte da Grécia, ficando a oeste da Tessalônica e da Trácia e a sudeste da Macedônia, da qual a separa o monte Olimpo. Das Montanhas da Tessália, há cerca de 4.000 anos desceram os aqueus que colonizaram todo o território grego, sob a forma política de pequenos clãs ou famílias. Oito séculos depois, os dórios invadiram os espaços dominados pelos aqueus desde a Tessália até o Peloponeso e a ilha de Creta, incluindo as ilhas Cíclades e a região da Ásia Menor ao sul da Trácia. Os dórios criaram as polis (cidades) organização que viria a substituir as clãs e, junto com elas, o fascínio pela fantasia, através do culto aos deuses e semi-deuses, que inventaram em larga quantidade, à semelhança de si mesmos, para representar as coisas conhecidas e os mistérios e segredos da Criação.

À leste da grande ilha de Lesbos no Mar Egeu, ficava a Lídia, na chamada Ásia Menor. Pérgamo era uma das cidades mais importantes desta região, famosa por sua enorme biblioteca (de pergaminhos), centro que foi da cultura helênica. O mais famoso rei da Lídia foi Tântalo, cujo filho Pélope mandou matar e servir em pedaços aos deuses durante um banquete de ação de graças. Diz a mitologia, porém, que Zeus (o deus supremo do Olimpo) exilou e condenou Tântalo a padecer eternamente de fome e sede; ressuscitou Pélope e deu-lhe as terras montanhosas a oeste do istmo de Corinto para governar. Esta península ganhou então o nome de Peloponeso e foi o centro das grandes transformações pelas quais passou a Grécia ao longo dos anos futuros.

O Peloponeso dividiu-se em 6 regiões bem definidas, tendo a Acaia ao norte, a Arcádia ao centro, habitada por pastores e a Lacônia ao sul, cuja cidade principal era Esparta, que o dominou durante 2 séculos e meio de grandes conflitos com os chamados "gregos".

Os árcades eram iguais a todos os helênicos: criavam cabras e produziam uvas, vinhos e azeite de oliva. Aceitavam que Zeus, ainda que casado com Hera, a deusa suprema, tivesse filhos com outras divindades, como Maia, da qual nasceu Hermes, o mensageiro do Olimpo, o poderoso deus da eloquência e do comércio e protetor dos ladrões e dos atletas. Hermes divertia-se entre estátuas, fontes e grutas do ninfeu, cortejado pelas dríades e ninfas, belas e subalternas divindades silvestres que dirigiam a ação dos rios, bosques e montanhas. De seu amor a Dríope, nasceu um estranho deus chamado Pã, dotado de pernas, pelos e chifres caprinos, longos cabelos em desalinho e rosto bonito. Corria pelos campos e subia montanhas, sempre acompanhando Baco, o grande deus do vinho e da alegria.

Pã tornou-se o rei dos sátiros, faunos das orgias de Baco, tendo às mãos algum instrumento musical ou o tirso, bastão rodeado de hera e cachos de uva, ou as taças com o generoso licor das festas dionisíacas. Certa vez, acompanhando as danças das ninfas, pretendeu casar-se com uma delas, por causa de seu canto maravilhoso, mas foi rejeitado. Furioso, transformou-a em bambu, para obrigar que sua voz, que tanto amara, ficasse aprisionada em seu interior e só fosse libertada por seus beijos.

Por estes tempos, Menalipo, que era uma das bacantes, aquelas ninfas seminuas que acompanhavam Baco em suas tardes etílicas, concedeu a Zeus um filho chamado Éolo, deus das tempestades e dos ventos. Numa tarde de verão, Pã o convenceu a entrar com os seus ares pelos tubos do bambu enfeitiçado e de lá retirar o som suave de sua ninfa rebelde. Assim nasceu a flauta !

Atenas foi, junto com Esparta e Tebas, uma cidade importantíssima para a cultura grega. Situava-se na península Ática, tendo ao norte a Beócia, com a qual combateu muitas vezes. Em Tebas, capital da Beócia, nasceu Píndaro, cuja poesia lírica viria tornar-se a mais expressiva de toda a cultura grega. Ele foi discípulo de Escopélinos, o primeiro grande flautista que a História registra, cinco séculos antes de Cristo. A ele, Píndaro dedicou as Odes Triunfais, a famosa coleção de hinos, ditirambos (canções em homenagem a Baco, Pã e sua comitiva) e odes, as delicadas poesias líricas musicadas.

Cem anos depois de sua morte nasceria Zenon, na cidade de Cicio, um dos pensadores gregos de maior prestígio. Reunia os discípulos num local chamado Pórtico, onde doutrinava sobre a obediência à razão e à necessidade da indiferença à sorte, à saúde ou à riqueza. Estóicos, como se intitulavam, elegeram Pã o herói principal, o ser supremo, o ditador da Vida Universal, aproximando-se dos panteístas para os quais só os deuses eram reais, sendo tudo o mais uma consequência deles.

Com tantos deuses e conflitos, os gregos perderam-se para os romanos mas estes lhes assimilaram a cultura e os heróis, apenas trocando os nomes: Júpiter em lugar de Zeus, Juno por Hera, Vênus por Afrodite, Mercúrio por Hermes ou Dionísio por Baco. Deste modo, outros treze séculos se passaram sem que a engenhosa fantasia grega tivesse perdido o viço.

Em 1876 Stéphane Mallarmé, então com 34 anos, publicava em Paris o poema "L'après-midi d'un faune", onde o sátiro renascia, retratado em toda a sua grandeza e sensualidade. Somente em 1894 "A tarde do fauno" chega ao conhecimento de Debussy atingindo-o com um raio. Sobre este assunto começou a compor um Prélude à l'après-midi d'un faune, depois um Interlude e uma Paraphrase, ambos perdidos.

A impressão que o fauno causou a Debussy, está em sua música e "prolonga a emoção do poema", como afirmou Mallarmé, indo "além dele na melancolia e na luminosidade, delicada, nostálgica e rica". Debussy cavalga sobre o texto, montado em sua própria fantasia, sem respeitar a tonalidade ou a forma, ébrio como os seguidores de Baco. Durante tantos anos pensou-se preso; viu-se inferiorizado diante da grandeza dos outros a quem admirava pela coragem, ousadia e talento. Um dia, rompendo a casca, libertou-se para o grande desafio: a conquista do horizonte. Chamou outra vez os ventos e com eles construiu a música de seus sonhos, modelando-a a cada instante como se fosse um banquete feito de nuvens.