Acorde Violão


POR LAURO PINTO


Na esquina da RUA BETHANCOURT SILVA com a AVENIDA CENTRAL, estava instalado o CAFÉ NICE (que alguns maldosos queriam que fosse o Café Nice, como em inglês). O prestígio do NICE era enorme, dividindo com a CONFEITARIA COLOMBO, na antiga RUA DOS LATOEIROS, atual GONÇALVES DIAS, a primazia na presença da intelectualidade. No NICE ficava a música, na COLOMBO a literatura, que dividia com o vizinho CAFÉ PAPAGAIO e com o CAFÉ DO RIO, na quina com a OUVIDOR. O NICE era especial porque em 1934 já se havia tornado o maior mercado de música do planeta. Ali se vendia de tudo e de tudo se comprava. "Comprositores" que jamais puseram um dó numa pauta musical ficaram famosos e entraram para as enciclopédias adquirindo repertórios inteiros de artistas talentosos mas de poucas posses.

Pelas mesas do NICE circulavam também escritores, editores e intérpretes, junto a aproveitadores, contrabandistas, malfeitores e cáftens. Estes últimos, os marginais, adquiriam ativos intelectuais para ocultar os negócios ilícitos em que se envolviam. E havia som o tempo todo, fosse pelas performances da Orquestra de moças de MARIA LUÍZA GOUDRON ou dos próprios instrumentistas que compareciam àquela feira livre musical.

NOEL ROSA era um dos mais assíduos freqüentadores do NICE, sempre de camisa azul marinho, gravata branca, que adquiria na NOTRE DAME DE PARIS na RUA DO OUVIDOR, cheirando a perfume ROYAL BRIAR da ATKINSONS, "o perfume que deixa saudades", como diziam os "reclames".

O Rio era uma cidade fervilhante, mas tranqüila; as pessoas não corriam, simplesmente desfilavam. Ainda existia o hábito da conversa, principalmente a fiada, aquela morna e prolongada. E, apesar dos ares sempre sufocantes, os homens vestiam ternos, usavam bigodes, bengalas e chapéus, as mulheres cobriam-se quase até os tornozelos e todas... todas, queriam ser iguais à THEDA BARA, a atriz do cinema.

Dezembro tinha começado com notícias tristes: a Academia de Letras perdia quase simultaneamente HUMBERTO DE CAMPOS e COELHO NETO, dois de seus melhores membros. A consternação era geral. No CAFÉ NICE, com um exemplar do REI NEGRO de COELHO NETO, marcado à página 214 "...Rolas gemiam quérulas...", DILERMANDO DE ASSIS, o assassino de EUCLIDES DA CUNHA (este que era tido por muitos como o melhor escritor brasileiro) lia a REVISTA CARETA e comentava os acontecimentos com o grande poeta ORESTES BARBOSA, autor de muitos versos imortais da canção popular tais como os de CHÃO DE ESTRELAS. Desta conversa surgiu a idéia de se fazer ali uma festa de confraternização a NOEL ROSA, aniversariante do dia 11 e que precisava de apoio para se tratar dos pulmões que andavam fracos. Que tal repetir a bela festa de junho, no CABARÉ APOLO DA LAPA? Nada importava que fosse uma terça-feira, pois o NICE não tinha relógio e nem calendário!

Avisado por CARTOLA, NOEL concordou, não sem antes peregrinar pela LAPA, pendurado numa indefectível guimba de Yolanda oval, o cigarro que andava fumando com mais freqüência. Tomou duas doses de zurrapa, uma perigosa mistura de aguardente com goma e gotas de Fernet, e foi-se ao NICE, acompanhado do pinho e da generosa CECI, já ia a noite a meio. Àquela hora o Café já estava cheio. Gente de toda a parte a falar alto e beber absyntho, cerveja Blok-Åle, Christal ou Fidalga. Circulou a atoarda de que Noel não viria mais porque tinha melhor companhia! Mas, vindo das bandas da CARIOCA, NOEL chegou de repente e o bar estrugiu alegre e buliçoso.

CARTOLA o abraçou e PIXINGUINHA começou a tocar, com a banda, o samba NÃO FAZ AMOR, parceria de NOEL com o próprio CARTOLA havia já 2 anos passados. CARTOLA fazia-se de cutuba, fumava um cachimbo de Nürenberg e, fora dos hábitos, mamava um vinho Adriano Ramos Pinto que não dividia. As rosas ainda não falavam com ele, o que só aconteceria em 1976, quando também descobriu que o MUNDO É UM MOINHO! O jovem sambista haveria de participar da gravação de vários discos lançados nos ESTADOS UNIDOS pela Columbia, feitos improvisadamente à bordo do navio Uruguai que, em 1940, esteve no RIO DE JANEIRO trazendo o famoso maestro LEOPOLD STOKOWSKI. A este encontro também estiveram presentes: ERNESTO SANTOS, O DONGA, PIXINGUINHA, JOÃO DA BAIANA e outros, levados pelo maestro VILLA-LOBOS.

PIXINGUINHA, que aos 55 anos parecia um garoto, chegara cedo. Ele era o arranjador exclusivo da RCA VICTOR mas naquele dia decidira não ir trabalhar. Foi visitar CHIQUINHA GONZAGA que andava acamada. Ela tinha 87 anos e adorava as músicas de NOEL, assim que pediu a PIXINGUINHA que tocasse na festa a canção LUA BRANCA, para homenagear o aniversariante e lhe dissesse que estava fraca mas que antes de partir queria... queria... LUA BRANCA. E PIXINGUINHA, ás da flauta, estava cumprindo a promessa, quando chegou o jovem cantor JOÃO PETRA DE BARROS, fã e amigo de NOEL. PETRA subiu a um banquinho e, soltando a bela voz, puxou o coro:

             "E ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
             vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
             ela partiu, me abandonou, assim...
             Ó lua branca por quem és, tem dó de mim."

A festa esquentava. JOÃO DE BARRO, abraçado a PETRA, pediu-lhe outra música: LINDA PEQUENA que o cantor acabara de gravar na ODÉON e que selava a parceria de NOEL e JOÃO DE BARRO, canção composta havia 3 dias apenas. Muitos anos depois esta marcha ganharia o nome definitivo de AS PASTORINHAS. O primeiro disco de JOÃO PETRA, gravado em 1933, fora de um samba de Noel. Naquele ano ele já gravara também FEITIÇO DA VILA que NOEL tinha composto para responder ao samba RAPAZ FOLGADO, de WILSON BATISTA. VADICO sentou-se ao piano e, provocativo, dedilhou a primeira frase do FEITIÇO; todos cantaram com ele. Terminada a música, oculta no meio do vozerio, a pequenina voz de ARACI DE ALMEIRA sussurrava o FEITIO DE ORAÇÃO, que NOEL escrevera para JULINHA, a sua namorada de 1932, oxigenada e desvairada bailarina. A melodia era de VADICO e ambos agora a tocavam sem que ninguém escutasse. Neste momento, de uma mesa lá do fundo, levanta-se a figura esguia de FRANCISCO ALVES, que aos 36 anos já era o mais consagrado cantor popular do Brasil, o CHICO VIOLA, que já havia gravado a canção. Com a voz tonitroante e empostada, calou, num minuto, o alarido desagradável:

             "Quem acha, vive se perdendo
             por isso agora eu vou me defendendo
             da dor tão cruel desta saüdade
             que por infelicidade,
             meu pobre peito invade."

Ao lado de Noel, a cândida CECI parecia saída de um reclame do Collyrio Moura Brasil. Usava um vestido reto, de seda azul claro com franjas abaixo dos joelhos e um discreto chapéu com 2 penas cobria os cabelos castanhos. Trazia um camafeu pendente ao pescoço. As mãos muito brancas cruzadas sobre o busto pequeno seguravam o queixo mas deixavam sobressair os olhos escuros e vivos e a boca desenhada pelo bâton bem vermelho. Depois do aplauso demorado, CHICO VIOLA dirigiu-se a Noel desculpando-se pelo atraso. Afinal, dizia ele, estivera na RÁDIO CAJUTI até tarde (ele tinha um programa lá) e depois passara na RCA VICTOR, que o havia contratado recentemente, para cuidar de suas novas gravações. O radialista CESAR LADEIRA tinha acabado de dar a ele o apelido de REI DA VOZ, com o qual ficaria conhecido até morrer e o pessoal do NICE agora gritava que o Rei da Voz ia homenagear o Rei do Violão. CHICO VIOLA deu o tom e VADICO tocou, com NOEL, FITA AMARELA, uma das muitas canções de NOEL que ele gravara e depois cantou a sua própria composição A VOZ DO VIOLÃO, finalizando a sua participação com a maravilhosa PRÁ QUE MENTIR, que constrangiu CECI, ali presente e assustada, para quem NOEL tinha composto a letra:

             "P'rá que mentir, se tu ainda não tens este dom de saber iludir
             P´ra que... prá que mentir, se não há necessidade de me trair
             P'rá que mentir, se tu ainda não tens a malícia de toda a mulher,
             P'rá que mentir, Ceci que gostas de outro, que te quis, que não te quer."

NOEL ROSA não era de rir mas tinha muito senso de humor. Nisto era mestre. Àquela noite, a sua mesa já não tinha mais lugar para as caixas de presentes, tantos eram os amigos que chegavam. Ele e LAMARTINE BABO chegaram a improvisar um samba sem conseqüência com uma fina ironia sobre a falta de imaginação das pessoas e a sutil insinuação sobre a sua eventual falta de banho! Afinal, ele já havia ganho Sabonete Lever, Sabonete Eucalol, Sabonete Aristolino e Sabonete Vale Quanto Pesa, além do já falado Perfume Royal Briar. Ganhara também um sapato do VALIANTE, gravatas, lenços, dois livros de HUMBERTO DE CAMPOS da coleção CONSELHEIRO XX, que muito apreciava, alguns discos, uma corrente para pendurar o relógio (que ele nunca usou) e conselhos, falados e escritos, sobre como cuidar da saúde.

Num dos lados do salão havia uma escarradeira, que Noel usava com freqüência, não menos do que todo o mundo, visto que cuspir era um hábito tão comum quanto beliscar o traseiro das mulheres. E havia ainda o pitoresco garçon Jovelino, dado a cantar, circulando com a bandeja cheia de cervejas e de Água Salutaris, pois a noite estava abafada.

Enquanto PIXINGUINHA tocava a valsa OSCARINA, de sua autoria, ALBERTO RIBEIRO conversava animadamente com ARY BARROSO e o maestro NAPOLEÃO TAVARES. ALBERTO tinha 32 anos, era médico e músico diletante. A partir do ano seguinte, seria parceiro constante de JOÃO DE BARRO com o qual assinaria uma dúzia de grandes sucessos; Ary, mineiro de UBÁ, tinha 31 anos e tocava piano na orquestra do maestro NAPOLEÃO e aquele era o dia da folga. VADICO aproximou-se e pediu que ele tocasse alguma coisa. ARY não recusou, embora já estivesse ébrio. Com um cigarro Liberty pendurado no canto da boca, sentou-se ao piano e chamou NOEL para cantar DE QUALQUER MANEIRA, o samba que tinham feito juntos no ano anterior. ARY não tinha a delicadeza do toque de VADICO e, por isto, NOEL sofria para ser escutado, trastejando o violão com aspereza. No fim, ARY improvisou sobre a harmonia da música permitindo ao parceiro uma paródia sobre o piano e o violão. Na sua parte, ARY repetia o refrão: "quem quebrou seu violão, não fui eu... foi ela." apontando alguém com o nariz! É curioso mencionar que esta letra, com pequena variação, acabou sendo aproveitada no samba FOI ELA que ARY compôs no ano seguinte: "Quem quebrou meu violão de estimação? Foi ela."

O samba de ARY era característico, abatucado, não era o samba típico de NOEL. O JOVELINO estava parado ao lado do piano com uma taça de cognac que Ary bebia de vez em quando, segurando com a mão esquerda enquanto tocava. Ele sussurrou algo no ouvido do pianista que logo começou a pianar o BREJEIRO, um tango de ERNESTO NAZARETH. Aos primeiros acordes, os aplausos começaram. Alguém perguntou pelo velho músico e foi PIXINGUINHA quem deu notícias: NAZARETH estava internado no hospício, surdo e distante do mundo, ele que tinha sido o grande emulador da música urbana do Brasil, adaptando o estilo erudito europeu ao nosso jeito... brejeiro! NAZARETH morreria 2 meses mais tarde, em pleno carnaval, tal como aconteceria com ARY BARROSO 30 anos depois. Naquela confusão muita gente tocava, afinal era o mundo dos músicos. Havia o oficleide primoroso do JUCA MARQUES, com os seus 70 anos, o clarinete do MALAQUIAS, o saxofone do ANDRÉ CORREA que fora diretor de harmonia do AMENO RESEDÁ, enfim, tantos...

E, como uma coisa leva à outra, alguém começou a tocar YARA, uma schottish de ANACLETO DE MEDEIROS. Nascido em PAQUETÁ e filho de escrava, começou na música aos 9 anos tocando flauta na COMPANHIA DE MENORES DO ARSENAL DE GUERRA. Aos 18 anos foi ser tipógrafo da IMPRENSA NACIONAL, enquanto freqüentava o CONSERVATÓRIO DE MÚSICA. Foi o fundador das bandas de música de Paquetá, da Fábrica Bangu, da Fábrica de Paracambi, da de Magé e da do Corpo de Bombeiros, tendo participado das primeiras gravações em disco no Brasil, em 1902. Compôs muita e boa música popular nos gêneros valsa, schottish, polka, mazurka e também obras sacras. Faleceu em 1907 aos 41 anos. ORESTES BARBOSA comentou aos ouvidos de PIXINGUINHA que HEITOR VILLA-LOBOS talvez não gostasse da música! PIXINGUINHA riu mas a ironia era procedente. O grande VILLA, ali presente, tinha usado aquela melodia para tema de seu festejado CHOROS Nº 10, obra de 1926 e que gerou uma disputa judicial com o poeta CATULO DA PAIXÃO CEARENCE, um contumaz espoliador da propriedade intelectual. A causa, ganha por CATULO, obrigava VILLA-LOBOS a excluir da partitura dos CHOROS Nº 10 a letra que o poeta de fato concebera, embora a melodia fosse de ANACLETO que, inexplicavelmente, nem chegou a ser mencionado na ação.

O assunto da apropriação era explosivo ali no NICE, lugar onde, com freqüência, autoria era questão de dinheiro. De longe, escondido atrás da fumaça de seu próprio charuto, a figura de VILLA-LOBOS sobressaía. Ele gostava realmente daquela gente embora o seu mundo musical fosse outro. Tinha um grande apreço por NOEL, que lhe havia sido recomendado por PIXINGUINHA, anos antes. A seu lado, trajando um panamá branco, impecável e comportado, estava JAYME OVALLE, com aquele eterno porte de lord inglês, um anacrônico pince-nez dourado pendurado ao nariz, não disfarçando a miopia avançada; parecia não apreciar a festa. Abstêmio, bebia HIDROLITOL para refrescar-se da noite morna em contraste com o pianista MÁRIO NEVES que, tamborilando no copo de absyntho, careteava a cada gole da poção amarga, o que fazia as delícias do poeta AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT que aos 28 anos já era um jornalista respeitado.

Naquele grupo, quem mais se divertia com a música era o VILLA, cantando e falando alto, pedindo comida e reclamando de OVALLE, seu convidado, do pouco que ele parecia divertir-se. Em todo o caso este acabou contando alguns casos de suas viagens a LONDRES e NOVA YORK. E bem que JOÃO PERNAMBUCO, que transitava de um lado a outro com um violão na mão, tentou conseguir que ele tocasse um pouco mas recusou dizendo-se despreparado. JAYME gostava dos pequenos grupos de choro, ele que desde menino, em BELÉM onde nascera, acompanhava as serenatas. Estudou piano, bandolim, violino e violão. Estava de passagem pelo RIO DE JANEIRO e disse que, cansado, só ficaria no exterior mais uns 3 anos, o que acabou acontecendo. Em 1937, aos 43 anos, publicou toda a sua obra musical, que não era extensa mas de qualidade excepcional, obra que só viria a ser apresentada em público em 1955, 4 anos após a sua morte.

E já que falamos de JOÃO PERNAMBUCO, em dado momento ele foi interrogado por SCHMIDT sobre a razão de se deixar enganar por CATULO, que acintosamente andava a se apropriar de suas canções tão lindas. É claro que VILLA-LOBOS não deixou passar em branco a discussão, por mais desagradável que fosse, por causa da demanda aberta pelo próprio CATULO contra ele. Mas a sagacidade de ZEQUINHA DE ABREU, que também participava daquela corriola, fez com que a conversa mudasse o tom.

ZEQUINHA tinha 54 anos e não andava bem de saúde (tanto que morreu um mês depois da festa) mas ele estava na casa de VILLA-LOBOS, a três quarteirões dali, e foi persuadido a ir até o bar. Quando ARY BARROSO começou a tocar a valsa BRANCA, ZEQUINHA emocionou-se ao lembrar a figura esguia de BRANCA BARRETO, filha do chefe da estação ferroviária paulista. Ele quase nunca saía de SÃO PAULO, onde vivia, exceto para viagens curtas como a daqueles dias, buscando na Capital o lenitivo para as suas moléstias. Era um artista respeitado e tinha um grande acervo de composições. Depois que a sua música TICO-TICO NO FUBÁ fora gravada em 1931, ainda sem letra, o seu prestígio aumentara muito. Ele tinha sido dono de farmácia, band-leader, escrevente e secretário da Câmara municipal de SANTA RITA DO PASSA QUATRO, onde nascera. Nada porém o classificava melhor do que a autoria de AMANDO SOBRE O MAR ou ÚLTIMO BEIJO.

AURORA MIRANDA, irmã de CARMEN, que dera uma passadinha por lá, sentou-se ao lado da figura frágil de ZEQUINHA, fez-lhe um grande afago, trauteou algo que o alegrou e despediu-se com um beijo, o último talvez da sua vida de artista. Ela estava acompanhada de PEDRO CELESTINO e do alagoano de 43 anos, AUGUSTO CALHEIROS, "A Patatita do Norte", como ficou conhecido. Falaram banalidades e pediram notícias de EROTHYDES DE CAMPOS que, aos 38 anos já era um dos mais fecundos e consistentes compositores do interior paulista. Nascera em CABREÚVA, perambulara por SÃO CARLOS e PIRASSUNUNGA até fixar-se em PIRACICABA onde, além de lecionar química, compunha e tocava flauta, piano e outros instrumentos. Neste exato momento chega-se a eles o sorriso de CHICO VIOLA. Decidiram ali mesmo cantar em homenagem ao artista ausente, a AVE MARIA, obra que o próprio CELESTINO já havia gravado na ODÉON havia 8 anos e que CALHEIROS também gravaria em 1939 e CHICO VIOLA em 1947. À dos dois primeiros juntou-se a voz poderosa de FRANCISCO ALVES, uma terça acima, afinadíssimas, tendo ao violão JOÃO PERNAMBUCO e o próprio CHICO, acompanhados pelo murmúrio respeitoso de toda a casa. Até o frenético tilintar dos copos cessou enquanto a melodia iluminava os corações daquela gente embevecida. Do lado de fora, encostado a um lampião e apoiado numa bengala de castão de prata, estava BORORÓ, o cronista da noite, conversando com CUSTÓDIO MESQUITA. Boquiaberto, respiração suspensa, BORORÓ, acompanhava aquele som incrível que, sem amplificação elétrica, viajava pelo beco e ecoava no mosteiro de SANTO ANTONIO, parecendo trazer de lá os segredos do próprio campanário. Coisas da madrugada! Com irreverência contumaz, espalhou que EROTHYDES não viera porque fora visitar o seu principal parceiro, o JONAS NEVES. Poucos sabiam que este outro era apenas o alter ego de EROTHYDES!

Terminado o número, palmas prolongadas e a gritaria álacre daquela gente bulhã, parecendo reunião festiva da Guarda Nacional. Ao invés dos quépis sobre as cabeleiras curtas e os chanfalhos pendurados, via-se pardavascos com as gaforinhas cobertas por bonés e cheias das idéias delirantes que o álcool prodigaliza. Atracados ao pinho ou à bandola, pregoavam altissonantes a próxima canção: SONS DE CARRILHÕES de JOÃO TEIXEIRA GUIMARÃES, o JOÃO PERNAMBUCO, sertanejo mameluco de 51 anos e poucas letras, modesto funcionário da Prefeitura. Morava com a irmã na quina da Rua do RIACHUELO com INVÁLIDOS, onde compôs muita música maravilhosa e que se perdeu ou foi apropriada por gente esperta como CATULO.

Um após outro os violões foram se juntando e já eram oito badalando quando lá do fundo um som sobrepuja o dos demais, pela doçura e pela ressonância. Duelo de titãs: de um lado o cariboca; do outro o pengó desgrenhado, cara de guarani, olhos negros vivos, penetrantes: AGUSTIN BARRIOS, nada menos! O paraguaio já famoso, 49 anos e autor de um repertório fundamental para a guitarra. Esta era uma de suas muitas visitas ao Brasil. Tinha tocado em São Paulo, onde se hospedara em casa do CAMARGO, um grande amigo que agora encontrara triste e angustiado por causa da morte recente do filho. Em homenagem a ele, AGUSTIN compôs o CHORO DA SAUDADE, obra prima que ele estava ali dedilhando, sozinho, sob o olhar deslumbrado de VILLA-LOBOS, que a esta altura também abraçava um violão que um mariola lhe emprestara havia pouco. A sensação de êxtase foi total quando a última nota soou. NOEL não se conteve, batendo palmas, pedindo bis. AGUSTIN desculpou-se dizendo que a festa era de NOEL e que não atrapalharia, estava ali só para dar-lhe os parabéns, já que viajaria para SAN SALVADOR no dia seguinte. Foi curiosíssimo ver ao lado deles a figura esguia de ALFREDO LA PERA, saudando BARRIOS num castellano com sotaque da BOCA. Poucos ali sabiam que aquele consagrado artista, autor dos versos de um dos mais lindos tangos "argentinos": EL DIA QUE ME QUIERAS, tinha por parceiro o uruguaio CARLOS GARDEL, sendo LA PERA, ele mesmo, brasileiro, acreditem!

Já eram duas da manhã quando o MORAES apareceu, de chapéu coco e bengala, vindo do restaurante Paris, o mais luxuoso da época, onde jantara, acompanhado do RAUL e do CALIXTO, homens de O MALHO. Do mesmo grupo faziam parte também os pintores setentões, ANTONIO PARREIRAS e RODOLFO AMOEDO, além do clínico ANTONIO AUSTREGÉSILO, com as indefectíveis polainas brancas e que aos 58 anos já era o tal! Depois da refeição superbe, em que a pièce de résistence foi um poulet Marengo trufado, resolveram-se a andar um pouco a pé até o NICE, a dois pulos dali do largo da CARIOCA. O MORAES era dono da ACADEMIA DE DANSAS MORAES, no sobrado que ainda existe à esquina da RUA SETE DE SETEMBRO com a RODRIGO SILVA, onde, no térreo, funcionava a FEIRA DE LEIPZIG de brinquedos. O grande cartaz do MORAES ficou ali durante décadas. Lia-se: "Quantas oportunidades você perdeu na vida por não saber dansar?" E era um privilégio aprender a dansar, que com "s" se escrevia, pelas mãos do MORAES e de suas cocottes. Por seu turno, o RAUL não fez por menos: tirou da algibeira a caixa de rapé, deu duas fungadas, puxou uma cadeira e pôs-se a desenhar, que é o que fazia bem, para alegria dos velhos mestres da pintura, fãs de seu espírito pícaro. Caricaturou o médico, que há pouco zombara da sua hipocondria, escrevendo em baixo o que GREGÓRIO DE MATOS GUERRA dissera, 3 séculos antes, de um esculápio baiano:

             "Quando o doutor Saracura
             aplica a sua sabença,
             quem não morrer da doença
             morre decerto da cura."

Simultaneamente, o BITTENCOURT (JACOB DO BANDOLIM), tocava mais um de seus choros envolventes, com o socorro da flauta de PIXINGUINHA e do violão afinado de J.CASCATA. Era um garoto de 16 anos e já formara o seu próprio conjunto com o qual tocava num programa da RÁDIO GUANABARA. Ele conquistara o primeiro prêmio num concurso de Novos Artistas da Rádio, derrotando 27 concorrentes. Estavam ali alguns dos jurados que lhe deram a nota máxima: CHICO ALVES, BENEDITO LACERDA e o respeitado poeta ORESTES BARBOSA. JACOB pensara em ser farmacêutico, como o pai; foi vendedor, prático, dono de farmácia e escrivão titular da Justiça criminal, nada que lembrasse o artista que deslumbrou o maestro RADAMÉS GNATTALI. Este último, que aos 28 anos já era o orquestrador da Victor, andava bem falado depois do sucesso de sua apresentação, havia dois meses, ao lado da grande soprano BIDU SAYÃO. Estava tão encantado com o talento de JACOB que dispôs-se a acompanhá-lo ao piano em duas de suas composições: AGÜENTA A CALUNGA e NOITES DO RIO, ainda um esboço do fulgurante NOITES CARIOCAS que, anos depois, tornar-se-ia marca registrada de JACOB, já nos tempos do conjunto ÉPOCA DE OURO.

A festa já derrubara alguns mas só fazia animar-se às custas do álcool e do inacreditável talento daquele sodalício.

Havia um grupo animadíssimo: ÁLVARO NUNES (o J.CASCATA), JOSÉ MARIA DE ABREU, FRANCISCO MATOSO, RAUL SENA, o teatrólogo GEYSA GONZAGA DE BOSCOLI (sobrinho de CHIQUINHA GONZAGA) e os seus amigos ORLANDO SILVA, ARACI DE ALMEIDA, SÍLVIO CALDAS, CUSTÓDIO MESQUITA e ... NOEL.

J.CASCATA, dois anos mais moço do que NOEL, também era da Vila. Desde cedo na música, juntou-se a ARY, JOÃO PETRA e aos TANGARÁS, freqüentando os programas das RÁDIOS CAJUTI, CLUBE DO BRASIL e PHILIPS e era assíduo do NICE. Aos 19 anos começou uma longa parceria com LEONEL AZEVEDO, da qual nasceram belas canções, como LÁBIOS QUE BEIJEI que o seu amigo e vizinho ORLANDO SILVA gravaria em 1937. Ele foi também funcionário da Saúde Pública e proprietário de um clube de danças em IRAJÁ onde, quem diria, acabou, como GRETA GARBO!

Já JOSÉ MARIA era paulista e, menino ainda, estudara piano e violino além de trumpete e violão. Regia também. Assim que se mudou para o RIO DE JANEIRO ganhou o concurso de músicas juninas do JORNAL A NOITE, cuja sede ficava na praça MAUÁ, no prédio mais alto da cidade. Havia dois anos que ele fora contratado como pianista, pela RÁDIO MAYRINK VEIGA e ali ficaria até 1938. Naquele ano de 34 ele tinha composto uma opereta chamada SONHO AZUL, com libreto de RAUL SENA e que tinha sido muito festejada. FRANCISCO MATOSO, que o conhecia de vista, viu a peça e ficou encantado com o seu melodismo elegante e romântico. Quando MATOSO morreu, JOSÉ MARIA firmou uma parceria de dez anos com JAIR AMORIM, também um crack, da qual ficaram canções inesquecíveis: ALGUÉM COMO TU, UM CANTINHO E VOCÊ, NÃO ME PERGUNTE e VINGANÇA.

E, no meio daquele povo, meio escondido, estava ele: FRANCISCO MATOSO, cantando ESQUINA DA VIDA, parceria com NOEL, a sua primeira música gravada, um ano antes, por MÁRIO REIS que também estava ali e se esforçava para ser ouvido. MATOSO era um boêmio e inspirado seresteiro. Tinha 21 anos o jovem e pirrônico advogado. Contudo, soltava-se na música, o seu verdadeiro território. A seu lado estavam LAMARTINE BABO, satírico incorrigível, a brincar com tudo e com todos, e JOSÉ MARIA DE ABREU que aos 23 anos apenas esboçava uma carreira de sucesso como músico e compositor. JOSÉ MARIA ficara impressionado com a qualidade do trabalho de MATOSO; alguns meses depois iniciaram uma fecunda parceria que teve início com a canção BOA NOITE, AMOR, gravada por FRANCISCO ALVES, que a manteve, durante anos, como prefixo musical do seu programa na RÁDIO NACIONAL. Por seu turno, LAMARTINE conservava uma admiração especial por MATOSO. Sete anos depois daquela noite ambos se encontraram na casa de MATOSO. Este, bem doente, pediu a LAMARTINE uma letra para a canção que estava tocando. Deste encontro surgiu EU SONHEI QUE TU ESTAVAS TÃO LINDA, a valsa que FRANCISCO ALVES gravaria em seguida, pouco antes da morte de MATOSO:

             "... Olhavas só para mim,
             vitórias de amor cantei,
             mas foi tudo um sonho... acordei.

E, se de fato tudo não passou de um sonho, deste hipotético encontro bem se poderia dizer: "Si non è vero, è ben trovato"...

Setembro de 2000