APPASSIONATO


POR LAURO PINTO

Robert Schumann nasceu na pequenina cidade de Zwickau na Saxônia, Alemanha, em junho de 1810, 16 meses antes de Franz Liszt, húngaro de nascimento, mas de descendência austro-alemã. Schumann queria ser escritor, teve uma juventude voltada para os textos de Göethe, Schiller, Richter e Hoffmann, definitivos na formação de sua personalidade romântica. A influência que Richter exerceu sobre ele acabou transformando-o num personagem delirante dos romances que lia. Os textos de Richter sempre foram recheados de música; achava que isto dava vida e cor ao papel. Aos 18 anos, Schumann observava a natureza, escrevia poemas, novelas e dramas não muito claros e apaixonou-se por Agnes Carus, bem mais velha do que ele, mulher sensível e musical, casada com um médico. Ela o seduz para a música, aquele leve sopro que sempre esteve oculto sob as suas idéias literárias. Foi em casa dela que Schumann conheceria Friederich Wieck, o seu futuro professor de piano.

Pressionado pela mãe, Schumann põe-se a estudar Direito na Universidade de Leipzig, uma das cidades mais importantes da Alemanha, onde pontificaram Bach e, mais tarde, Mendelssohn. Apesar da música ser parte de suas refeições cotidianas, ele ainda encontrou forças para uma temporada de pós graduação em Heidelberg, pequena cidade a sudoeste da Turíngia.

Volta a Leipzig. Crescente o interesse pelo piano e ele desiste do resto, deixa-se dirigir pela férula de Wieck; exaspera-se com a indocilidade das teclas que o não obedecem como deveram e dá sequência à absurda idéia de conseguir a independência de seu quarto dedo da mão direita por exercitá-lo, enquanto mantinha o terceiro dedo amarrado, imóvel. Meses depois, ao completar 21 anos, constata, desesperado, que a paralisia de seu dedo mé dio é irreversível. Não se conforma, embora afirme o contrário à sua mãe: " ¨não teria mesmo sido feliz como pianista¨". Vocacionado para a composição, nela concentra todos os esforços, apesar dos frequentes estados depressivos, cujo ápice foi uma primeira tentativa de suicídio.

Mas Schumann era predestinado para a música. As primeiras obras, ao contrário do que acontece habitualmente, são de uma graça e uma perfeição estrutural ímpares. Criações inspiradas, cheias de mistério, hábeis e brilhantes. O gosto pela charada, o jogo da sedução, a surpresa e o encantamento fazem dessas composições a perfeita amostra do grande artista que haveria de ser.

Aos 23 anos, frequentando as tertúlias do Kaffeebaum, habitáculo dos incorformistas de Leipzig, encharca-se da boa cerveja que se custa a enxergar naquele ambiente de pouca luz e permanente névoa de fumo generalizado. No canto do fundo, sob um arc o abatido, divide a pequena mesa com o velho pianista Knorr, o pintor Lyser, também músico, o tonitruante Wieck e Hiller e Schunke. Revoltam-se contra a crítica musical, que, ao longo dos séculos, tem servido à adoração da incompetência em detrimento do gênio verdadeiro, que sempre lhes foi impermeável. Eles, os ¨Companheiros de David, ¨fundam uma sociedade secreta, a revista Nova Gazeta Musical, homônima da que em Paris se edita sob a influência de Liszt e Berlioz.

Schumann é o mentor de tudo; escreve sob os pseudônimos de Eusebius e Florestan (personagens do adorado Richter), assina os textos de seus amigos com nomes tais como Raro, Jeanqurit, Méritis e outros; esconde a sua noiva Ernestine como a Estrella da Gazeta e faz com que o grande fenômeno pianístico da cidade - a ainda menina Clara Wieck - autografe as suas idéias como Zilia ou Chiarina. A cumplicidade dos amigos permite a Schumann investir contra a mediocridade dos músicos de conveniê ncia, a hipocrisia da imprensa, a falsa glória dos dissimuladores. Sobre Czerny ele diz: "¨Por mais que a crítica se empenhe, não é possível resgatar o senhor Czerny. Se eu tivesse inimigos e os quisesse aniquilar, condená-los-ia a não escutar senão esta música¨..." Durante mais de dez anos ele analisa com profundo rigor o que se publica em toda a parte; combate com força e desprezo os "¨burgueses da música¨" e ilumina com poesia e sensibilidade a obra de compositores de seu tempo, alguns de sua própria idade como Chopin, Mendelssohn, Liszt e Wagner. Os crít icos, em sua quase totalidade, escrevem sobre o que não sabem e enaltecem quem lhes paga melhor, como acontece até hoje. Não o perdoam pelo sucesso que não depende deles e que os desmoraliza com o fio de sua inteligência e a mordacidade de su a sátira.

Aos 25 anos Schumann constatou que o seu noivado com Ernestine von Fricken fora um ensaio para a ópera principal de sua vida, a novelesca união a Clara Wieck. Esta, filha do colérico professor Wieck, nove anos mais moça do que Robert, foi o grande objeto de seu desejo e de sua música. A ela é dedicada, diretamente ou não, a sua obra inteira. Alguma coisa dela já aparece nas Variações Abegg Op.1 e em Papillons Op.2 mas sobretudo nos Impromptus sobre um tema de Clara Wieck Op.5 e no Carnaval Op.9 onde ela surge, límpida, no ¨Appassionato con molta anima¨. E ei-la de novo na dedicatória da Grande Sonata em fá # menor Op.11, nas Variações sobre um tema de Clara Wieck Op.14 (parte da 3 Sonata), na luminosidade das Cenas Infantis Op.15, na Fantasia Op.17, nas Novelettes Op.21, enfim, em tudo...

Repentinamente, o obsessivo Wieck se dá conta do romance e reage com ferocidade. Proíbe visitas, faz com ela devolva as cartas, organiza concertos em toda a Europa que a mantém afastada de Leipzig. Isto não os impede de manter uma correspondê ncia fraccionada e tensa durante os próximos 4 anos. Vigiada pelo pai, Clara consegue tocar as obras de Schumann em seus recitais; este, por sua vez, impregna as suas composições de um amor cada vez mais denso e apaixonado. O ódio que se abateu sobre o velho professor ao descobrir-se "traído" pelo talentoso aluno que cobiça apossar-se de sua obra prima, a maravilhosa pianista Clara, levou-o à vileza e brutalidade, causando um grande sofrimento. Afastada toda a possibilidade de conciliação, os amantes resolvem submeter a questão ao tribunal, que decide permitir o casamento, pondo fim às suas angústias e desesperanças e ainda condena Wieck a uma curta prisão por injúria.

Clara, já agora Schumann, foi também um personagem ímpar na História da Música. Prodigiosa como intérprete, corajosa como mulher, deu a Schumann os oito filhos que ele já havia concebido em sua música! Dirigiu a casa com proficiê ncia, criou os meninos, compôs, foi cortejada como princesa e gozou de um prestígio que Robert jamais teve, viajou a toda a parte divulgando a obra dele, atendeu-o em sua loucura final e manteve-se afastada da maledicência após a sua morte, apes ar das muitas evidências de um relacionamento afetuoso estreito com o jovem Brahms, durante os 40 anos em que sobreviveu ao marido.

Ao contrário de Robert, Clara nunca se deu bem com Liszt. Achava-o arrrogante, impulsivo, rude com os demais. Admitia que ele tocava o que quisesse com um brilho incomum mas isto a incomodava muito. Admirava-o pelo permanente interesse pelas coisas da m úsica mas o criticava pela falta de gosto, sobretudo no que escrevia. Após a morte de Schumann, Clara, que já nutria verdadeira aversão a Liszt; estimula Brahms a assinar o manifesto contra as tendências da Escola musical de Weimar, onde Lisz t pontificava. O grande violinista Joachim fora o autor da idéia: "¨Que seja banida a palavra Liszt¨" mas Brahms, ingenuamente, foi o único artista importante a assinar, embora Clara estivesse ansiosa por