A Itália, remanescente do Império Romano do Ocidente, permaneceu durante o Período Barroco como o centro cultural da Europa. Ao longo de 4 séculos manteve-se dividida em reinos, repúblicas, grã-ducados. A região do Piemonte, ligada à Casa de Savóia, esteve sob tal influência francesa que em Torino, a principal cidade, falava-se francês e adotava-se a chamada "hora francesa" (o dia começando à meia-noite, como é até hoje) em vez da hora romana, adotada em todo o resto da Itália, pela qual o dia terminava ao por-do-sol! À leste o reino da Lombardia (com o predomínio de Milano) e a poderosa República de Veneza às margens do Mar Adriático. Ao sul do Piemonte, Gênova que, como o reino de Nápolis e da Sicília, sofreu forte influência da Espanha e da França. Outros pequenos reinos intermediários entre a grande República da Toscana e os Estados do Norte foram Modena, Reggio, Lucca, Carrara, Parma e Mantova. Restaram os Estados Pontifícios, reunidos sob a orientação da Igreja Católica de Roma. Estes foram sempre um amontoado de pequenas tiranias que (das fronteiras napolitanas até Ferrara, ao sul dos venezianos) não tinham grandes interesses ou ligações comuns, fossem administrativas, políticas ou culturais, ao contrário das demais.
Se a Itália ainda era o centro do mundo no século XV, apenas 3 regiões mantinham uma certa unidade política que permitia a existência das atividades artísticas como produto maior de seus povos: o Reino de Nápolis, ao sul, e as Repúblicas de Veneza, a nordeste e da Toscana ao centro.
O Barroco confunde-se com a História italiana dos séculos XV a XVIII. A conturbada História italiana mostra, simplificadamente, a eterna disputa dos grandes e pequenos reinos do norte entre eles mesmos e a França, Espanha, Suíça, Hungria, Áustria e Alemanha, não se dando tempo para criar cultura própria, exceto nos intervalos guerreiros. Mostra a anarquia e a corrupção dos Estados Papais e a permanente gangorra entre a estável República de Veneza e o Reino das 2 Sicílias, balançando sobre a riqueza da Toscana. Aí sim repousa o poderio artístico italiano, principalmente sobre a cidade de Florença, que tinha o lírio como emblema e a flor (ou florim) de ouro como moeda, a mais valiosa e usada nas transações internacionais.
Os florentinos orgulhavam-se de sua organização social e política que os fez resistir às invasões e impor costumes e idéias às demais regiões italianas. Desde 1282 eles se denominavam uma República, com um Governo sem precedentes na História da Humanidade. Católicos, eles sabiam que Deus tinha feito os homens desiguais entre si e que seria uma injustiça não considerar isto; tratavam de administrar a desigualdade, para o bem de todos. As famílias de origem nobre e os ricos (que chamavam "grandi") não podiam governar. As corporações de operários, artistas, negociantes, etc, reuniam-se em 21 "guildas" que, sabiamente, chamavam de "arti". A de maior prestígio era a "Arte dei Giudice e Notai", composta pelos Advogados (!!!) mas havia a Arte dos Mercadores de Lã, dos Banqueiros, dos Artistas, dos Médicos, etc. Eram elegíveis todas as pessoas de mais de 30 anos pertencentes às "Arti", que não fossem devedores notórios, tivessem exercido um cargo recentemente ou fossem parentes ou ligados a alguém assim. Os seus nomes eram colocados numa das 8 bolsas de couro que ficavam na sacristia da Igreja de Santa Cruz. Uma vez a cada 2 meses, 9 nomes eram sorteados para o Governo, que chamavam de Senhores ("Signoria"): eram 8 "priori" e 1 "gonfalonieri" ou Chefe da República. Eles ganhavam o direito de usar trajes lindíssimos, moradia no "Palazzo", uma porção de serviçais de libré verde, um salário ridículo, um belo cavalo ricamente ajaezado com um xairel vermelho e dourado e a presença de um "buffone", que devia cantar e dizer piadas durante as esplêndidas refeições. Havia vários outros Conselhos com mandatos variáveis e a Assembléia do Povo, constituída de pelo menos 2/3 de todos os cidadãos maiores de 14 anos e que era convocada pelo badalar do Grande Sino.
Este regime, controlado pelo pequeno empresariado, garantiu a prosperidade econômica e social da Toscana e o predomínio de seu desempenho cultural sobre toda a Europa, desde o século XIII até o final do século XVIII, sem nunca ter tido um exército próprio, exceto num curto e desastrado período.
Durante meio milênio o sistema sofreu diversas alterações, chegando mesmo a aproximar-se dos reinos mais centralizadores, à época dos grão-duques, após 1569, com Cosimo I de Medici. Todas as vezes em que o poder se concentrou nas mãos de um "Pater Patriæ" a Toscana perdeu prestígio e o "popolo minuto" piorou de vida. O grande charme dos florentinos foi, ao contrário, o inusitado sistema de Governo controlado pelos homens do pequeno comércio. Os poderosos, do alto de sua pompa, cuidavam dos grandes negócios, das intrigas, da devassidão e da diplomacia, do que se tornaram, isto sim, reis. O sucesso dos governos do povo os beneficiava e eles exerciam uma influência decisiva sobre a "Signoria" e os Conselhos e assim, todos tinham alimento, festas e justiça.
Os florentinos vestiam-se sem muita afetação, comiam frugalmente e tinham hábitos sóbrios, ao contrário dos romanos. E, mesmo sem exercer qualquer cargo oficial, Cosimo de Medici (morto em 1464) era o mais poderoso homem de todo o mundo desde os Imperadores Romanos; o seu Banco era o maior da Europa; tinha às mãos o papado e a Igreja Ortodoxa, após a queda de Constantinopla para os turcos em 1453. Orgulhava-se de possuir a mais valiosa biblioteca da Terra e tinha feito mais pela arte do que provavelmente qualquer outra pessoa sozinha antes dele. Era tão generoso nos donativos que os frades chegaram a protestar da ostentação. Ele retrucou: "-Jamais poderei dar a Deus o bastante para incluí-lo em meus livros como devedor." Nada impediu que este verdadeiro imperador fosse preso pela "Signoria" e exilado durante um ano em Veneza. Quando morreu, aos 75 anos, disse aos filhos: "-sêde inofensivos aos ricos e fortes e caridosos com os pobres e fracos; não demonstreis orgulho e mantende-vos sempre longe dos olhos do público."
O seu descendente, Lorenzo, chegou a conseguir a excomunhão do próprio Papa Sisto IV, na Roma onde havia uma prostituta para cada 7 pessoas. Os livros que ele não podia comprar mandava copiar à mão. Olhando a caligrafia de dois de seus amigos, imitou-lhes o estilo e criou ele próprio uma escrita cursiva bela, fácil e compreensiva (que até hoje é conhecida como "itálico") que, por sua influência, substituiu completamente a desagradável caligrafia gótica.
À Toscana, cuja principal cidade era Florença, deve a Itália o predomínio cultural e a própria língua. No século XIII falavam-se dezenas de dialetos. Dante Alighieri (1265-1321) e seus contemporâneos Francesco Petrarca (1304-1374) e Giovanni Boccaccio (1313-1375), escreveram generosamente numa linguagem derivada do toscano (os 3 viveram em Florença) e o poder desta palavra foi tão grande que a língua que eles praticamente criaram tornou-se o idioma geral de toda a península e das áreas de influência na ilha de Elba, na Sicília, na Ístria e na Dalmácia. Fazendo literatura ao estilo romano, eles foram os elos de ligação entre Ariosto, Tasso, Ovídio e Tito Lívio e a literatura que surgiu até o século XVIII. Isto é um fato que não pode ser contestado. No outro lado, os músicos pertenciam a uma classe inferior à dos escritores a quem se subordinavam, assim como os artesãos. A música, subsidiária dos "libretos" de ópera ou dos motetos religiosos, tinha o nome de seus autores impresso apenas por cortesia (quando o era!). Ao contrário dos literatos, os músicos não se organizavam; reuniam-se só para tratar de questões ligadas ao próprio trabalho, incogitadas as de natureza estética. Já os escritores, nostálgicos de Academo (o jardim de Atenas onde Platão pregava a seus discípulos, no século IV A.C.), fundaram inúmeras associações, algumas nacionais, alcunhadas Academias, onde o mote era a discussão funda da língua e de seus usos artísticos. Em Roma, a "Academia degli Arcadi" propunha-se a preservar o espírito da Arcádia do Peloponeso, com as suas cerimônias helênicas, os árcades nomeando-se ao modo grego. Este conservadorismo, estimulado pela prevalência da Igreja Católica sobre toda a manifestação cultural e a educação popular, manteve a unidade de pensamento e criou os meios para o surgimento de alguns estilos musicais integrados, como a ópera.
Desde o Renascimento que, sob a influência dos Medici, Florença esteve na vanguarda das artes. Ghiberti e Gozzoli e as suas famosas "Portas do Batistério", Michelangelo, Donatello, Giotto, Fra Filippo Lippi, Pisano, Botticelli, Verrocchio, Pollaiuolo, Ghirlandaio, Leonardo da Vinci, Andrea del Sarto, Maquiavel, Savonarola, Benvenuto Cellini, Nicolaus Copérnico, Galileu Galilei e Torricelli trabalharam em Florença, cujo poder de atração da melhor parte da intelectualidade foi marcante. Isto continuou durante o século XVIII com o acolhimento dos músicos, naturais e estrangeiros, como Hændel, Cristofori, Alessandro Scarlatti e seu filho Domenico, Frescobaldi, Veracini e Lully.
Por outro lado, a República de Veneza manteve-se como o principal entreposto comercial do Mediterrâneo, atendendo ao Império Áustro-Húngaro, à Alemanha e ao Império Otomano, e também gerou um grande acervo de produtos e serviços culturais. O Carnaval de Veneza foi a matriz de seu intenso fluxo turístico. A República convivia com um "doge" autoritário e dava privilégios aos "patrícios" (reminiscência do Império Romano), que, sendo aapenas 4% da população, dominavam amplamente a administração e os bens.
O que significa a estética barroca? Onde está o segredo de Cremona, capaz de suprir o mundo de violinos tortos, cheios de curvas que contrariam o caminho do som, mas insuperáveis? O barroco está na fantasia, na dissimulação, na capacidade diplomática de ser e não ser. Ele aparece nas volutas dos capitéis dourados, nos ornatos, nos passamanes, nas golas, nos bordados e nos falsetes, brilha nos meninos de voz prodigiosa, castrados jovens para perpetuar o canto feminino, eles que, adultos, ganhavam dez vezes mais do que os compositores que faziam a música de que iriam desfrutar! No barroco escondia-se a verdade de um homossexualismo indiscriminado, de uma moralidade hipócrita e de uma religiosidade sem alma. A essência das coisas só recomeçou a ser vista no Classicismo com a abolição progressiva das alegorias e adereços, os mesmos que fizeram do Carnaval de Veneza, onde todos se ocultavam atrás de máscaras, a grande festa européia, cuja duração de 2 meses superava o hoje demorado Carnaval baiano!
A necessidade de ostentação e de mistério transformou o barroco numa imensa e louca oficina de arte, produziu um impressionante acervo cultural, a única formulação capaz de contrabalançar um tempo tão cheio de defeitos, de ódios, de desprezo pelo próximo. Na arte barroca, o muito que se vê ou escuta merece a máxima atenção, mas o que sob ela se esconde é que é realmente fundamental.
Não é difícil perceber que, de algum modo, a Itália gravitava em torno da Igreja Católica e era o principal empregador. Bolonha, no fim do século XVIII, tinha 200 igrejas, 36 monastérios e 28 conventos! A metade da Toscana pertencia à Igreja, ali controlada por um exército de 27.000 clérigos, cerca de 3% da população! Cada pequena igreja possuía um coro e órgãos fixos ou portáteis. As igrejas maiores empregavam outros músicos de sopros e, nas festas grandes, contratavam instrumentistas e coristas de fora. Os músicos levaram 300 anos para ocupar um lugar equivalente ao dos cantores nas "capellas".
Porém, lá pelo meio do século XVII, já se podia notar uma tendência autônoma da música de igreja (a única que realmente prevalescia) sobre todo o enredo escrito. Como era mais complexo adaptar a melodia aos textos escritos, havia uma certa tolerância eclesiástica e um claro divórcio entre a música e o rito. Ela servia-se cada vez mais a si própria e não às missas, que só dependiam do oficiante e de seus áulicos, nunca da assembléia, passiva e obediente. Quando a liturgia e a música se invadiam, a primeira se continuava em voz baixa para harmonizar-se com o discurso musical que se não deveria truncar.
A música em si mesma só adquire independência completa no século XIX e a partir dos Estados Centrais da Europa. No barroco, a música coral era a expressão cultural suprema, sendo a música um mero acessório. Os coros serviam às igrejas mas também cantavam nos banquetes, bailes e festas públicas. Os pequenos grupos cantavam, acompanhados de músicos, nos quartos da aristocracia e dos membros inferiores das cortes locais. Era a chamada "música da câmera".
Como os monarcas gostavam de cercar-se de literatos, organizavam "conversazioni" ou "accademie", concertos privados de solistas. Daí começaram a circular os "dilettanti", artistas de origem nobre que se apresentavam nas cortes, evitando o contágio com as classes que lhes eram inferiores. Isto não impediu o nascimento em Veneza (logo imitado em Nápoles, Florença e Mantova) dos teatros de ópera pública, imediatamente ocupados por empresários privados que montavam espetáculos profanos, de gosto popular. Paralelamente surgiu a "serenata", ornamento essencial das festas, muitas, que a Itália prodigalizava a qualquer pretexto. Coristas e músicos, viajavam atrás dos príncipes dispostos a apoiar-lhes a função, que dependia intrinsecamente da sensibilidade artística dos suseranos e espelhava o gosto pessoal de cada um deles. Por isto, a descontinuidade estilística era comum, embora nunca chegasse a ser um empecilho permanente ao desenvolvimento cultural, por causa do intenso intercâmbio e da mobilidade dos artistas.
Os músicos seguiam os cantores, estes sim, bem pagos; melhor ainda os de vozes agudas como os "castrati". Com o tempo, os cantores assumiram um repertório próprio. Chegando a um teatro de ópera, misturavam as suas árias aos "dramas" que os empresários contratavam aos escritores. Os "libretos" da época eram livros completos, vendidos ao público ou aos patrocinadores. Era preciso ser assim para que as Censuras civil e eclesiástica pudessem atuar sobre uma obra concreta e se evitasse também a improvisação não autorizada previamente. Isto estimulava ainda mais o conservadorismo, pois a reutilização de textos e cenários, figurinos, árias e maquinismos significava economia de recursos e de tempo com a burocracia pretorial. Falando de música, havia árias "prêt-a-porter" que serviam a qualquer enredo; cantando o desejo, a alegria, o medo, a coragem, a ira ou o amor, elas faziam a glória dos solistas viajantes e asseguravam o sucesso das produções locais.
O público participava intensamente, também estimulado pela Igreja; o acesso à educação musical era amplo e estimulado; havia escolas e conservatórios em toda a parte e os meninos mais talentosos eram adotados por gente abastada ou pelas próprias instituições.
A predominância vocal da música barroca italiana recomendou o uso acessório de violinos, cravos e órgãos portáteis. Os violones, por exemplo, só apareceram lá por 1650 e somente em Veneza, por causa do intenso intercâmbio com a Alemanha. Eram também usados correntemente o "clarinete", o "chalumeau" e a "viole all'inglese". O oboé e a flauta transversal só foram adotadas no último estágio barroco.
A produção musical na Itália foi tão abundante no barroco que sufocou todas as iniciativas estrangeiras. Ainda no período clássico este predomínio permaneceu, ao menos no campo da ópera. E por que houve um declínio tão acentuado se ali se produzia mais música do que era possível consumir? Em função de razões tecnológicas e políticas. As sociedades italianas, pressionadas pelas rivalidades da nobreza fragmentada e pelo alto grau de conservadorismo da Igreja Católica, não se modernizaram por dentro e fizeram de suas casas e aldeias o palco de suas próprias óperas, bufas e hipócritas, persistindo em manter as relações do tipo feudal. Enquanto isto, os Estados transalpinos viviam a intensa discussão dos filósofos e criavam novas e poderosas máquinas, copiadas e melhoradas a partir das idéias alheias.
A perda de "status" da aristocracia italiana caldeou para a Alemanha, principalmente, os melhores frutos intelectuais da península. Houve um momento em que tanta música italiana era pirateada na Holanda e na Inglaterra que se arruinou totalmente (e por mais de um século) toda a impressão musical italiana. A consequência imediata foi a progressiva submissão dos autores italianos aos gostos estrangeiros: como estes preferiam a música instrumental (porque, não entendendo a língua, não compravam música vocal) esta assumiu um caráter dominante no final do barroco e contribuiu aceleradamente para o seu declínio.
Novos instrumentos e novos gêneros associados a uma indústria forte de edição musical, fizeram o eixo cultural mudar de lugar. Os italianos apegaram-se às técnicas seiscentistas de impressão por placas, que foram abandonadas em Londres, Amsterdam e Paris, onde usavam-se técnicas novas, para produzir partituras a preços muito baixos. Na Itália, nenhuma partitura era impressa sem o patrocínio de um mecenas e isto era um grande problema, resolvido às custas da superioridade de seu papel pautado e da mão-de-obra de copistas, cuja classe tornou-se numerosa e bem paga.
Assim como a flauta transversal de 6 furos e 1 chave limitou o uso do instrumento até meados do século XIX, o cravo e o órgão ditaram a música do barroco italiano, o papel de 12 pautas, usado na península, condicionou o trabalho dos compositores, que preferiram restringir a sua criatividade às dimensões físicas de um pergaminho, ao invés de colar folhas suplementares.
A música ao longo dos tempos sempre foi escrava: ora da mecânica, ora da acústica, da imprensa, da organização social ou de todas elas. Curiosamente, quando ela atingiu a independência, o resultado foi tão decepcionante que o gosto musical foi aos poucos retornando ao dos tempos em que a submissão a certos ideais estéticos e conceitos éticos era uma coisa considerada natural.
Lauro Henrique Alves Pinto
Fevereiro 1997