Clara Wieck tinha 14 anos quando, na cidade de Leipzig, Robert Schumann, 9 anos mais velho, começou a apaixonar-se por ela. À esta mesma época, em Hamburgo, ao norte da Alemanha, nascia Johannes Brahms um dos mais importantes compositores do ¨Romantismo¨. Após uma infância de poucos recursos, estudo rudimentar e convivência precoce com o ¨bas-fond¨ portuário, ele conseguiu tomar aulas de música e firmar-se como artista. Aos 17 anos, já concertista e professor de piano, conheceu Eduard Reményi, talentoso violinista húngaro de 20 anos, com quem logo após faria um duo e se apresentaria em muitas cidades, uma boa parte das quais alcançadas em longas e penosas viagens a pé. Ao completar 20 anos, a sua vida toma u ma inflexão importante, devido a três fatos: o ter conhecido Joseph Joachim, violinista húngaro de 22 anos e que acabaria por se tornar um dos mais expressivos de sua geração, o acolhimento que teve por parte de Robert e Clara Schumann e o frio encontro com Liszt em seu atelier em Weimar.
De certo modo, a amizade de Brahms por Joachim, decorreu de que Reményi, seu parceiro anterior, fascinado pela estética de Liszt, deixou-se seduzir pela "¨Música do Futuro¨" que emanava da ¨Nova Escola Alemã¨. Em contrapartida, Schumann foi atraído pela música de Brahms, cujo elogio fez estampar na ¨Nova Gazeta Musical de Leipzig¨ e uma sólida amizade os uniria para sempre.
Enquanto isto, Liszt, o todo-poderoso da música européia àqueles tempos, exercia o seu longo reinado na pequenina Weimar, templo onde Göethe e Schiller criaram anteriormente os seus grandes monumentos literários. Ele recebeu Brahms com a hospitalidade que lhe era peculiar mas quando o viu relutante em tocar as suas próprias composições frente ao público r efinado que regularmente se reunia à sua volta, decidiu ele mesmo executá-las. Foi então que um ¨Scherzo¨ e uma ¨Sonata¨ renasceram sob os dedos ágeis de Liszt enquanto mereciam dele comentários e sugestões. Johannes, o jovem e rude compositor criado na zona do cais, permanecia ali, intimidado pelo fausto e terminaria adormecendo enquanto o mestre tocava, a pedido de alguns ouvintes, a sua própria e portentosa ¨Sonata¨. Liszt nunca o deixaria de tratar de modo fidalgo e cortês apesar de Brahms, 7 anos depois, ter assinado um ¨Manifesto¨ redigido por Joachim, em que eram condenados os princípios da ¨Nova Escola Alem㨠e pedia-se que o nome de Liszt fosse eliminado da História Musical. A grande incentivadora desta atitude desastrada foi Clara Schumann que, por aqueles dias, já nutria um sentimento de aversão a Liszt. O permanente bril ho da carreira do húngaro tinha feito sombra a muita gente competente, inclusive ela mesma e Brahms (de quem tornara-se amante após a morte de Robert Schumann em 1856). Ela sentia-se inferiorizada em relação a Liszt, embora não houvesse motiv o para isto. Julgava a sua música, a de Brahms e a de Schumann e Mendelssohn "melhor" do que a de Wagner ou Liszt, embora este último sempre tivesse pago com generosidade e carinho os agravos que lhe eram dirigidos.
Esteticamente, a música de Brahms assenta-se sobre quase as mesmas bases das dos seguidores de Liszt. René Descartes em seu ¨Discours de la Méthode¨, dizia:¨ "o bom senso 騨 a cousa mais bem repartida deste mundo porque cada um de nós pensa ser dele tão bem provido que, mesmo aqueles que são mais difíceis de se contentar com qualquer outra cousa, não costumam desejar mais do que o que têm...e assi m, a diversidade de nossas opiniões não resulta de serem umas mais razoáveis do que outras, mas somente de conduzirmos os nossos pensamentos por diversas vias e de não considerarmos as mesmas cousas..." ¨O fundamento do ¨Romantismo¨ literário estava diluído em princípios políticos, desde meados do século XVIII com os escritos de Rousseau; na Alemanha, as idéias de Friedrich Schlegel deram-lhe um caráter quase religioso e não é sem razão que Schumann fora buscar aí a sua inspiração para a maravilhosa¨ Fantasia¨ e o próprio Brahms valeu-se dele na escrita de canções. A vertente que separou a ¨Escola de Weimar¨ dos Schumann e de Brahms foi a compreensão diferente dos mesmos princípios. Wagner estava muito mais para a radicalização do conceito de ¨gesamtkunstwerk,¨ em que a história funde-se à música, à poesia, à dramatização, aos efeitos ¨hollywoodianos¨ de cor e espaço do que Brahms, cuja originalidade não se apoiava na forma mas nas idéias. Brahms também não aceitava a "¨música de programa¨", o poema sinfôn ico de que Liszt abusou; criava música romântica, de prodigioso conteúdo melódico, a partir das estruturas provenientes do ¨Classicismo¨, dizendo não querer saber da ¨Música do Futuro¨ que não tivesse passado!. Agora, temos de dar razão a Descartes porque tanto Brahms quanto Schumann, ironicamente, embebedaram-se com as tentativas de Ernest Theodor Hoffmann, através de seu personagem Kreisler, de "¨inventar um concerto magnífico feito de cheiros, cores e raios de luz¨", exatamente o que criticavam em Berlioz e Wagner. Estes, por seu lado, apoiavam-se na sensibilidade e no humor de Jean-Paul Richter, que, afinal, tinha sido idolatrado por aqueles!
Brahms estudou a fundo as obras dos compositores clássicos. À música que construiu sobre estes fundamentos deu feitio romântico, tecida com o equilíbrio e a sobriedade que a pobreza ensina e transformada em produto pesado e opaco, mas sempre bem acabado, de contornos aveludados e deliciosamente melódico. Frequentemente Brahms protege os engenhosos motivos, que lhe brotavam em profusão, em meio a uma verdadeira carapaça harmônica. Talvez por isto sempre temos de sua música a sens ação de solidez e estabilidade, atributos dos solitários e dos necessitados.
Brahms nunca se casou mas teve uma vida cheia de mulheres. Elas deram colorido e calor a seus dias, penetraram em seus pensamentos e renasceram, simples e despojadas de roupas e enfeites, na luminosidade de suas melodias e canções de amor. A sua companhia mais importante foi, indubitavelmente, Clara Schumann. Um ano depois de ter sido acolhido em casa dos Schumann em Düsseldorf , Robert tentou o suicídio e foi internado num sanatório; morreria 2 anos mais tarde, deixando Clara, com 36 anos de idade e 7 filhos em situação precária. Brahms, aos 23 anos, decide ajudá-la; desta decisão nasce uma grande ternura entre ambos e um amor sem precedentes: ele não consegue superar os seus problemas existenciais e não ousa avançar o romance além das próprias utopias, percorrendo a mesma estrada que as suas composições. Ela também hesita em casar-se pela segunda vez mas aceita a ambiguidade da situação contraditória. Os laços com que se prendem são reais como os sonhos sabem ser, são tangíveis como o som... são... eternos. Ela sempre teve por ele uma paixã o quase materna e, ciumenta, não perdoava os seus modos gentis de tratar as mulheres que o ofício colocava em seu caminho.
Repentinamente, quando estava prestes a completar 60 anos, Brahms de dá conta de que havia sobrevivido a todos os seus parentes. Também o abalou muito a morte de Elisabet von Herzogenberg, esposa de um regente muito querido e, ela mesma, uma de suas amigas mais inteligentes e fiéis, com quem mantivera uma volumosa correspondência. No verão, ele decidiu voltar às beiras do lago de Ischl na alta Áustria, onde, no ano anterior estivera compondo o ¨Trio Op.114¨ e o ¨Quinteto Op.115, ¨ambos para clarinete. Durante aquela primavera ele desfrutara a companhia da jovem meio-soprano italiana Alice Barbi e estava visivelmente encantado com o interesse que ela demonstrara por suas composições. Ele estava tão excitado com a sua interpretação quanto com a sua beleza e não escondia que, se fosse mais moço, escreveria can ções de amor em sua homenagem. Ela voltaria a pousar em sua vida outras vezes e acabaria por tornar-se a principal intérprete das canções dele mas, naquele verão... ela preferira outra companhia masculina. Brahms, inquieto, dava longos pas seios pelos campos floridos de Ischl; buscava motivos para não pensar em sua irmã Elisa, que perdera alguns dias antes, mas uma triste melodia sempre aparecia quando ela aflorava às suas lembranças. Refletindo a angústia desses dias, ele compôs os ¨Intermezzi Op.117¨, um conjunto de 3 peças sob a forma de suaves acalantos, escritos com clareza e habilidade, verdadeiras preces mudas, lágrimas ao vento, pérolas delicadas e sombrias. Ele sentia a falta de Clara, ultimamente envolv ida com os seus problemas de saúde; a ela, contraponto permanente de suas amarguras, ele dedicou essas derradeiras mensagens, cheias de sabedoria, de tristeza e de amor.
Brahms gostava de Ischl, de seus ares, suas flores e sua paisagem muito azul. Os verões seguintes ele os passou lá, colocando os pontos finais em sua produção musical. Fazia algum tempo que ele tinha decidido deixar de compor, mas as últimas colheitas estavam sendo generosas, pela alta qualidade da música que surgia sobre o papel. Em 1891 ele conhecera o clarinetista Richard Mühlfeld, por cuja interpretação apaixonou-se. Mühlfeld queixou-se da falta de melhores papéis para o seu instrumento, numa alusão ao fato de Brahms não ter escrito nada especificamente para clarineta até então. Br ahms decidiu então recompensá-lo pela graça de seu toque doce e refinado e escreveu para ele as suas quatro últimas obras de câmera: o ¨Quinteto¨, o ¨Trio¨ e as duas ¨Sonatas com piano¨. Há muito tempo Brahms não ficava tão satisfeito com um trabalho como quando terminou as sonatas. Elas traziam de volta a jovialidade dos anos verdes e ele decidiu acompanhar Mühlfeld em uma turnée por divers as cidades alemãs para apresentá-las ao público. Afinal, ele sabia em seu íntimo que este era o seu canto-de-cisne. Depois disso ele escreveu apenas mais um grupo de 4 canções para voz solista e os 11 Prelúdios-corais para órgão.
Lauro Henrique Alves Pinto
Outubro de 1996