O século XI apresenta-nos um ponto de inflexão importante na Idade Média ao desequilibrar o sistema econômico e social do regime feudal e introduzir novos conceitos artísticos e culturais. Afirmam-se novamente as cidades como centros mercantis e de habitação. Ainda que a terra significasse o sustento básico das famílias, o artesão adquirira importância fundamental no comércio citadino, não mais para o consumo próprio mas para o uso localizado de sua freguesia. O aparecimento dos mercadores modificou a atividade artística que até então era utilitária e passou por um lento processo de isolamento. Os materiais nobres, que antes eram transformados em objetos úteis, passaram a ter uso comparativo, como moeda de troca, coisa quase inexistente àquela época. É o comércio que põe o dinheiro a girar e faz dele, além de moeda, mercadoria; as pessoas libertam-se por meio dele. No passado só a Igreja o possuía, mas não lhe dava função alguma. Depois os limites entre os estratos sociais começaram a cair porque o acervo intelectual de cada um (e não mais a origem ou a raça) passou a ser determinante para a fixação do grau de prestígio social. Essas pessoas, os burgueses, deslocaram o seu desejo das coisas úteis para as coisas de valor: móveis, roupas, casas, armas. "Parvenues", foram ainda considerados abaixo do campesinato por quase 2 séculos, à conta de sua condição nômade e apesar de muitos terem mais riqueza do que a nobreza decadente.
Todas as transformações ocorridas daí em diante derivaram do nascimento da burquesia. O mesmo dinheiro que lhe permitiu a ascenção social, serviu mais tarde para criar, internamente, outras classes segundo a fortuna. Em consequência, todos passaram a competir entre si, com ferocidade. Dispondo livremente de seu trabalho, agora pago em dinheiro e não mais em mercadorias, travara permanentes batalhas pelas melhores posições sociais. A arte, como manifestação de habilidade individual, torna-se tarefa quase exclusiva da burguesia e é dedicada à religião e às cortes. Um mercado burguês de arte inicia-se, pálido, quando a religião começa a pertencer ao povo e não mais ao clero, de algum modo fruto das Cruzadas, e por causa do intenso intercâmbio cultural que as cidades proporcionavam, entre os seus próprios habitantes e os mercadores estrangeiros, plenos de produtos e idéias. A perícia dos artistas passou a criar obras que tinham valor intrínseco e um mercado de arte surgiu, acompanhando o movimento pendular das pessoas: cavaleiros, mercadores, estudantes, peregrinos, artesãos, músicos e professores.
A Cavalaria desempenha um lugar de destaque na sociedade medieval. Era composta de soldados profissionais que passaram a exercer influência exagerada na defesa dos feudos de príncipes e outros nobres, em seus intermináveis conflitos bélicos. Apenas uma pequenina parte provinha da tropa regular pois a maioria era "apaniguada", ou seja, sustentava-se com o pão que lhe dava o grão-senhor. Os cavaleiros vitoriosos ganham terras e mais tarde títulos nobiliárquicos de segundo grau; ao contrário de seus senhores, competiam pelo feudo, não pelo reino. De início dispostos a defender qualquer bandeira que melhor pagasse, os cavaleiros rapidamente colocaram em primeiro lugar a honra da lealdade. Tornaram-se uma casta, com os seus cargos hereditários e a ética inflexível e transformaram-se no mais importante estrato da nobreza européia. A Igreja também contribuiu para o crescimento da Cavalaria, dando-lhe o status de Exército de Deus, consagrando-a à defesa dos fracos e oprimidos, como se formasse uma nova classe eclesiástica desprovida de poderes espirituais. As virtudes da Cavalaria são adaptações dos tempos heróicos às novas realidades: afronta ao perigo, desprezo pela dor e a morte, lealdade absoluta, retidão de caráter, honestidade, autocontrole e prudência, magnanimidade para com os vencidos, respeito para com as mulheres, cortesia, galanteria, generosidade e negligência quanto ao lucro.
Dentro dos estreitos limites das pequenas cortes onde a Cavalaria se desenvolveu, era suprema honra pertencer ao círculo palaciano. Ali, a convivência social pautava-se pela rigidez das normas, onde palavras, gestos e emoções faziam parte de um estereotipado códice não escrito. A literatura religiosa cedeu lugar às romanescas histórias da Cavalaria e é neste momento que surgiu a sua grande contradição. O pensamento medieval tornou-se essencialmente feminino, apesar de sua aparência exterior abrutalhada. As mulheres, já senhoras das moradias, pela ausência continuada dos homens, passaram a dominar a educação das famílias, disseminando os seus ideais estéticos e morais. Rapidamente elas passaram a dominar o conhecimento o que as habilitou ao governo dos lares, dos palácios e dos reinos. O mundo, via-se através dos olhos femininos e assim se explica a delicadeza imperante nos códigos da Cavalaria. A mulher era a origem, o objeto e, por consequência, a platéia da poesia, da música e do romance. De escrava e serva, passou a senhora das decisões. A atitude cortês dos homens da Cavalaria significava a submissão completa às vontades femininas e ao reconhecimento de que o objeto amado podia ser apenas uma coisa ideal e inatingível. Vê-se que o guerreiro valente e destemido, herói armado e todo-poderoso, abandona o seu cavalo e rasteja implorando um amor que se consubstancia num gesto, num olhar, num sorriso...
Tão igual foi a literatura trovadoresca que dela nos fica a certeza de que a mulher que se decantava era apenas uma abstração. As senhoras, mesmo (e principalmente) as casadas, descreviam-se no galanteio menestrel pela beleza e sedução. Isto era o que elas mesmas queriam que se lhes dissessem para satisfação da própria vaidade. A lealdade (e o amor) do vassalo a seu senhor transferia-se às damas, através das canções, sem que houvesse um epílogo real, na maior parte dos casos. Foram os gregos os primeiros a fabular o amor como elemento romântico e dramático, quando até então ele estava circunscrito às realizações puramente sexuais. Leandro a nadar pelo estreito dos Dardanelos guiado pela tênue luz que Hero lhe acendia, Psiqué a desfrutar, na escuridão, o corpo que Eros (Cupido para os romanos) lhe ocultava, Dido a apunhalar-se no desespero de perder o amor de Enéias que a abandonara, Andrômaca a despedir-se de Heitor, nos versos da Ilíada de Homero, são cenas clássicas do aproveitamento do amor como expressão de ternura e encantamento idílico, fenômeno que desapareceria da História durante 1.500 anos! A noção de que o amor é a origem da beleza, da sabedoria e da bondade só se restabeleceu aos tempos da Cavalaria. A extrema liberdade com que os trovadores sofriam por amor, referindo-se à senhora do castelo, contradiz a severa lealdade que lhe deviam. Havia poucas mulheres nos castelos (as moças iam para os mosteiros) e os homens a serviço do senhor, quase sempre solteiros, tinham sido educados sob a orientação da grande dama, a quem deviam obediência e respeito. A canção trovadoresca, essencialmente palaciana, sobreviveu intacta durante mais de 300 anos e acabou fundindo-se às canções de amor dos menestréis vagantes, tornando-se, finalmente acessíveis à gente do povo. Na Itália, durante o século XIV, a Toscana produziu as obras de seus 3 maiores escritores: Dante, Petrarcha e Boccacio, os verdadeiros sistematizadores da língua italiana. Esta literatura é de tal forma importante que constituiu-se fonte permanente de inspiração para os compositores dos séculos seguintes.
Com o advento das armas de fogo e a mudança nos rituais guerreiros, a Cavalaria perdeu a sua força. Mantendo-se voltada para dentro de seus ideais, foi sendo vencida pela disciplina dos soldados à pé. Ela que combatia seguindo apenas a bravura e a opinião própria de cada cavaleiro, não era mais um exército mas um bando de aventureiros que se consideravam heróis e imortais. Na França, durante a Guerra dos Cem Anos, Felipe VI de Valois viu destroçar-se a sua Cavalaria nas batalhas de Crécy, Poitiers e Azincourt, perdidas aos ingleses não porque ela fosse menos poderosa mas por causa do anacronismo de sua idealização dos combates. A Cavalaria não conseguia compreender os novos movimentos de forças sociais, políticas e econômicas e insistia em fazer uma guerra pessoal para defender a rainha. A Arte tudo compreendeu e retratou, porque Vida.
As proezas épicas dos cavaleiros e os seus amores sempre envoltos no mistério, no delírio e na fantasia, fizeram as delícias dos escritores durante muitos séculos. Os compositores de música, cavalgande esta tendência, valeram-se dos escritos de seus antecessores para escrever a melodia que imaginavam brotar daquelas palavras. Os românticos, sobretudo, mais do que os barrocos ou os clássicos.
Entre os que mais se serviram dos temas literários que envolviam o Amor e o Heroísmo estava Franz Liszt, o húngaro. Contraditório e enigmático, era um desafio compreendê-lo mas ele nunca foi encarado com indiferença, o que dá exata dimensão à sua grandeza. Católico (a ponto de ter tomado ordens menores da Igreja, como abade), circulava entre judeus, protestantes, ciganos ou maçons. Cidadão do mundo, falava tão bem o francês como o alemão, mas jamais conseguiu expressar-se no idioma natal, apesar de ter sido tratado como herói em seu país, que tanto visitou e para o qual contribuiu com a força de sua música, de sua palavra e de seu olhar. Victor Hugo, uma de suas amizades francesas, admirando-lhe o semblante, num encontro do outono de suas vidas, repetiu-lhe: "-No brilho dos olhos dos jovens está a luz das chamas; no brilho de teus velhos olhos está a verdadeira luz."
Lauro Henrique Alves Pinto
Setembro de 1997