NAVEGAR É PRECISO
POR LAURO PINTO
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O PASSADO NÃO SABE O SEU LUGAR:
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Quando, a 9 de março de 1500, a Armada de PEDRO ÁLVARES DE GOUVEIA zarpou de BELÉM, em LISBOA, com destino a CALICUT na Índia, uma epopéia de 5 séculos terminava. As 13 pequenas caravelas levavam menos de 500 homens nos quais se resumia a história de um pequeno e teimoso povo, construído com a argamassa da fé e com os melhores gens da coragem, audácia, sabedoria e tenacidade disponíveis na Europa ocidental. Falto de espaço e gêneros, CABRAL não se poupou de levar alguns indispensáveis sacerdotes além de 7 músicos, entre os quais 2 alaudistas. O alaúde é, como se sabe, o precursor direto do violão moderno, inclusive nas finalidades de produção de música intimista.
Entender as relações interativas entre o discurso poético e o musical dos trovadores da RENASCENÇA (séculos XV e XVI) é uma tarefa árdua. O texto era um produto lírico essencialmente popular, derivado da tradição medieval da PROVENCE (região a sudeste da FRANÇA). Itinerantes, os trovadores diziam canções com variados versos, apoiados em estruturas melódicas e harmônicas simples e repetitivas. A notação musical era imperfeita e incompleta, o que dificultou a reconstituição e confundiu os pesquisadores.
Porém, do que bem se sabe, temos um inventário importante a definir os convergentes interesses de uma época especialíssima. O véu que a oculta, mal deixa perceber as misteriosas lendas que moveram o povo português, estuário de idéias e realizações visigóticas, francas, mouras, celtas, provençais, normandas, galegas, bretãs, gregas, genovesas ou florentinas.
As cantigas galego-portuguesas foram catalogadas em cadernos de pergaminhos (Cancioneiros), a partir do século XII, contendo algumas poucas referências à música e à rítmica. Mas, uma forma de apoiar a pesquisa foi montar o mosaico musical predominante em PORTUGAL, no século XVI, a partir do rico material renascentista que circulou entre a FRANÇA, INGLATERRA, ESPANHA e o próprio espaço português.
Vamos relatar sucintamente as circunstâncias sob as quais aquela música floresceu desde as origens medievais. Isto nos permite omitir a parte vocal das canções, repetitivas e monótonas, para melhor realçar a linguagem musical, conceitualmente importante dentro do contexto deste disco.
Nas chamadas cantigas d'amigo, o poeta cantava pela voz da donzela amada. Nas canções de amor, ao contrário, o verso partia do próprio trovador. As canções d'amigo, numerosas e belas, falavam da alvorada (as albas), da navegação (as barcarolas), dos bailes (as bailias), das romarias ou das declarações de amor feitas às pastoras (os pastorelos). Apesar desta subdivisão não aparecer explicitamente nos Cancioneiros galelo-portugueses mas apenas na música provençal, ela é útil para fixar o alcance de cada composição. Em PORTUGAL a cantiga d'amigo, à moda provençal, vestiu-se de brilho próprio e a poesia amorosa, vivaz e plena de sentimento, ganhou em entusiasmo e paixão, ofuscando completamente o gênero do qual se originara. E tornou-se popular.
Havia outros tipos de cantiga, ditas no romance (o dialeto vulgar do latim), no ladino (a língua comum falada pelos judeus sepharditas da península ibérica, dialeto intermediário entre o romance e o castelhano, dos reinos de CASTELA e Leão). Havia ainda as formas eruditas ou vulgares da língua árabe. O zejel, por exemplo, era a forma poética popular equivalente às canções d'amigo, e predominava na ANDALUZIA (sul da ESPANHA, dominada pelos mouros). Estes tipos eram chamados de canções de seguir, nas quais os trovadores seguiam mutuamente, em versos e em música, os versos e músicas da canção precedente. É o modelo que perdura no Brasil nos chamados "repentes" ou "desafios", comuns no cancioneiro popular nordestino, cuja dificuldade composicional é bem superior à das canções de seguir. Havia outro tipo, menos comum, chamado de cantiga d'escárneo ou maldizer, canções satíricas ou destrutivas.
Em todas as cantigas, todavia, a poética completava a música, mesmo quando a esta precedia! Sempre a palavra buscava adaptar-se à rítmica e à melodia. Também por isto, vamos nos concentrar no pensamento musical que àquela ocasião predominava. Sob este ângulo, era habitual a lírica ocultar o verdadeiro significado do discurso; já com a forma musical, simbólica por natureza, isto não ocorria. Quanto ao formato musical, mantinha-se a conotação originalmente religiosa, com os leves desvios que convinham às danças profanas e desde que não dessem causa à oposição clerical.
Ficaria teorizando eternamente sobre a poesia dos Cancioneiros. Acho mais virtuoso demonstrar as similaridades e diferenças no repertório musical da FRANÇA, INGLATERRA e PORTUGAL, na época dos grandes descobrimentos marítimos. A música reflete melhor o que se passou naqueles tempos. Por isto, vou começar a justificá-la, resumindo a História dessas 3 nações, a partir das origens comuns.
Nas caravelas portuguesas realçavam as grandes cruzes da ORDEM DE CRISTO, idêntica à imagem cultuada pelos antigos e perseguidos TEMPLÁRIOS. Por que estranhas razões isto aconteceu? As respostas vamos encontrá-las a partir da Antiguidade Clássica.
Os gregos foram pioneiros na sistematização da idéia da existência de um Paraíso que, primeiro, colocaram no monte OLIMPO e mais tarde no longínquo Oriente. A lenda estimulou os aventureiros à busca do EL DORADO e fez a reputação de grandes conquistadores. O ÉDEN, que já constava do mapa de CANTINO, foi bem documentado no primeiro livro das METAMORFOSES, grande obra do poeta romano OVÍDIO. Quando JESUS nasceu, provavelmente 6 anos antes do que hoje se supõe, OVÍDIO tinha 37 anos e era um dos muitos artistas patrocinados por MECENAS, o rico ministro do imperador CAIUS JUSTUS OCTAVIANO, que a História registra com o apelido de JÚLIO CÉSAR. OVÍDIO é até hoje aclamado pela ARTE DE AMAR e a coletânea FASTOS, mas é nas METAMORFOSES que ele penetra profundamente nos mitos, a força motriz das pessoas na busca do conhecimento. A fábula infundia medo, criava dependentes mas estimulava a imaginação, muito mais do que as verdades comprovadas.
Nos séculos seguintes, com a cristianização do IMPÉRIO ROMANO, o mito, para manter-se inalterado, mudou de feições. No 2º século da nossa Era, o apóstolo SANTIAGO MAIOR fez a sua peregrinação mística ao sul da GÁLIA, atravessando os PIRINEUS e chegando à região da GALIZA. A bandeira da ORDEM DE SANTIAGO era a mesma que os ADORADORES DO TEMPLO (os TEMPLÁRIOS) adotaram muitos séculos depois. Os Jardins bíblicos do ÉDEN, terra onde perduraria a paz eterna, a abundância, a sabedoria e o entendimento entre os homens, era a motivação de SANTIAGO (ou Sant'Iacó, Jacob, que nos deu Thiago, Jacques, Jayme e James), como o farol que excitou a imaginação dos cristãos até o século XV. Um século depois de SANTIAGO, S.VICENTE foi morto pelos romanos na costa atlântica da IBÉRIA e protagonizou outra lenda, a de que o ESPÍRITO SANTO (representado pelos corvos negros) protegeria o seu túmulo, no promontório de SAGRES (de sacris, terra sagrada ou transcendente). Mesmo após a transferência dos seus despojos para LISBOA, aquelas aves continuaram a habitar a Igreja que os conservava, indiferentes ao fato de ter a administração eclesiástica de Roma decidido mudar o símbolo do ESPÍRITO SANTO para uma pomba branca. Aos poucos o culto ao ESPÍRITO SANTO, símbolo dos ideais de igualdade e fraternidade da doutrina cristã, foi assumindo o caráter de devoção do povo português e criando embaraços ao poder temporal dos papas.
Dois séculos mais tarde, os povos chamados bárbaros deslocaram-se em hordas através de todo o esfacelado IMPÉRIO ROMANO. Os visigodos, antigo povo do oeste da GERMÂNIA, vindos das margens do DANÚBIO conquistaram os territórios ibéricos, juntamente com os alanos (bárbaros da SARMÁCIA, no CÁUCASO) e os suevos e vândalos (ambos também germânicos). Estes últimos, transpondo o MEDITERRÂNEO, ocuparam e destruíram o Norte da ÁFRICA e todo o sul da ESPANHA (a região que passou a chamar-se VANDALUZIA, ou ANDALUZIA). Os visigodos, por seu lado, absorvidos pela cultura cristã e romana, que lhes era superior, controlaram toda a IBÉRIA, tendo sido derrotados pelos muçulmanos, cuja presença na península durou 750 anos! Os árabes sarracenos, transpondo os PIRINEUS em direção ao norte, tentaram conquistar a AQUITAINE gaulesa mas foram vencidos pelo rei dos francos CARLOS MARTEL, em 732, na batalha de POITIERS, marco na defesa dos interesses cristãos na Europa. Os sarracenos recuaram e foram pouco a pouco sendo expulsos da IBÉRIA, a partir do diminuto enclave visigótico que remanesceu nas montanhas das ASTÚRIAS, nos PIRINEUS espanhóis.
Ao mesmo tempo que CARLOS MAGNO, neto de CARLOS MARTEL, conquistava o imenso território que abrangia a FRANÇA, ALEMANHA, PAÍSES BAIXOS, ÁUSTRIA, LOMBARDIA e PANÔNIA (na HUNGRIA), fazendo-se coroar em ROMA como imperador do SACRO IMPÉRIO ROMANO, o povo das ASTÚRIAS apoderava-se de LEÃO e GALIZA, expandindo-se pelos limites das terras do condado de CASTELA, entre os rios D'OURO e TEJO. CARLOS MAGNO tinha transformado AIX-LA-CHAPELLE (na WESTFALIA germânica) na sede do seu império, onde produziu um RENASCIMENTO fantástico; controlou o poder dos condes e bispos, criando a ASSEMBLÉIA DOS NOTÁVEIS e os "enviados do Senhor". Foi sua a iniciativa de reunir em torno de uma távola redonda os 12 cavaleiros (12 Pares de França) que deviam decidir os destinos do império. Tratava-os por iguais, estimulado pelo culto ao ESPÍRITO SANTO. Alguns séculos depois, surgiram as lendas do rei ARTHUR e os 12 cavaleiros da távola igualmente redonda. Muitas estórias foram contadas a partir das novelescas aventuras do rei ARTHUR, suposto príncipe de GALES que, no século VI (ou mesmo antes), teria peregrinado às montanhas de NORTHUMBERLAND, na fronteira da ESCÓCIA, em busca do SANTO GRAAL, o cálice que JESUS teria usado na última ceia. As narrativas falam da cidade de CAMELOT e dos seus mistérios, além das peripécias de MERLIM, o mago celta (que teria vivido 5 séculos antes!).
É interessante observar que no século XIV, quando os monges TEMPLÁRIOS foram queimados vivos na França, por ordem do papa Clemente V, surgiram os primeiros relatos das aventuras do rei ARTHUR, acompanhado de personagens de nomes franceses e falando francês, repetindo idéias consolidadas na FRANÇA já havia 600 anos. Só que estas lendas retroagem a um período anterior a CARLOS MAGNO, e não têm nenhum compromisso com a coerência e a cronologia. Curiosamente, cerca de 15 anos depois, EDWARD III iniciava a famosa GUERRA DOS 100 ANOS contra a FRANÇA, devolvendo a invasão da ilha por GUILHERME O CONQUISTADOR, duque da NORMANDIA, em 1066.
Após a morte de CARLOS MAGNO o império desagregou-se mas os seus ideais de igualdade tinham fincado raízes na GÁLIA e se estenderam para o sul, pela BOURGOGNE e AQUITAINE, até a NAVARRA e o condado PORTUCALENSE.
A vila de PORTO CALE (hoje a cidade do PORTO), fundada à margem esquerda do RIO D'OURO, deu origem ao condado PORTUCALENSE, em torno do século X, após a expulsão dos mouros. O pequeno território ficava entre os rios D'OURO e LIMA ao norte, na fronteira com a GALIZA, da qual dependia, apesar da oposição dos barões do condado que almejavam a autonomia.
Naquele exato ano de 910, GUILHERME, O PIO, duque da AQUITAINE, fundava uma ABADIA DA ORDEM DOS BENEDITINOS na pequena cidade de CLUNY. Em breve, esta obra prima da arte românica tornar-se-ia o maior monumento do Ocidente e abrigaria um poderoso movimento de reforma eclesiástica que se estenderia por toda a Europa.
Bem ao norte dali, na cidade de CLAIRVAUX, o jovem BERNARDO, monge beneditino da ABADIA DE CLUNY, fundava em 1115 outra Abadia onde, combatendo o racionalismo do teólogo PIERRE ABELARD (celebrizado pela paixão por HELOÍSA que lhe causara a castração), desenvolvia com brilho incomum o culto ao ESPÍRITO SANTO e a busca do PARAÍSO perdido do Oriente, onde estaria a fonte da sabedoria, talvez no santuário do GRAAL. SÃO BERNARDO foi um dos teólogos mais importantes de toda a História da Igreja Católica e o seu poder rivalizou com o papal. A ORDEM DE CISTER que ele criou, espalhou os seus ensinamentos com uma velocidade e uma penetração impressionantes.
A oeste de CLAIRVAUX ficava a cidade de CLERMONT, onde o papa URBANO II tinha realizado um concílio ecumênico em 1095, do qual resultou a realização da primeira Cruzada, que restabeleceu os estados latinos do Oriente e terminou em 1100, com a consagração de Godofredo de Bouillon como rei da PALESTINA, em JERUSALÉM. Em 1144, porém, os turcos reconquistaram ÉDESSA na MESOPOTÂMIA e, por isto, SÃO BERNARDO DE CLAIRVAUX defendeu a realização de uma segunda CRUZADA, que fracassou inteiramente.
Mas a busca do reino do ESPÍRITO SANTO contaminara o mundo latino, principalmente a partir de 1119 quando SÃO BERNARDo redigiu a Regra da ORDEM DOS POBRES CAVALEIROS DE CRISTO E DO TEMPLO DE SALOMÃO. A partir desta Regra, o poderosíssimo D.HUGO DE PAYNS, Abade dos Abades, fundou a ORDEM DE CRISTO OU DOS TEMPLÁRIOS, baseada nas idéias reformadoras da ORDEM DE CISTER. E alguns poucos anos depois, o monge de CISTER, JOACHIM DE FIORI começaria a pregar os princípios do que chamava a NOVA ERA, a Era do ESPÍRITO SANTO. Em resumo, ele dizia que SÃO JOÃO BATISTA lhe afirmara, em sonho, que a primeira Era compreendera o período do culto a JEOVÁ, o grande Pai dos judeus, até o nascimento de JESUS; a segunda Era estava por terminar e a terceira Era, que viria substituir o cristianismo, traria o reino do ESPÍRITO SANTO sobre todas as coisas, traduzido na completa libertação do pensamento e na felicidade coletiva. O Concílio de LATRÃO, em 1215, considerou heréticas as idéias e práticas dos monges TEMPLÁRIOS e eles foram perseguidos, mas só no século XIV a Ordem foi suprimida.
A influência de D.HUGO era tanta que ele enviou alguns nobres em auxílio ao rei de LEÃO, entre os quais estavam dois sobrinhos dele: RAIMUNDO e HENRIQUE DE BOURGOGNE. Ambos casaram-se com as filhas de AFONSO VI, do rei de CASTELA e LEÃO. RAIMUNDO tornou-se senhor do condado de GALIZA e HENRIQUE de PORTUCALE, subordinado àquele, todavia, já agora compreendendo as terras até o rio TEJO. HENRIQUE encontrou ali uma mistura inacreditável de povos, que mantinham uma certa coesão graças aos esforços dos barões do condado, que lutavam pela independência. Capitalizando estes sentimentos ele conseguiu certa autonomia de GALIZA mas a vassalagem ao reino de CASTELA e LEÃO só seria suspensa em 1128 quando AFONSO HENRIQUES, filho de HENRIQUE DE BOURGOGNE, vence os partidários de AFONSO RAIMUNDES, seu primo (filho de RAIMUNDO DE BOURGOGNE) que mais tarde iria tornar-se imperador da ESPANHA com o título de AFONSO VII. AFONSO HENRIQUES, sagrando-se rei de PORTUGAL em 1139, ainda viria a conquistar o ALENTEJO, na fronteira com o ALGARVES, na batalha de OURIQUE contra os mouros. PORTUGAL tinha se tornado a primeira nação unificada da EUROPA, já que em todas as outras os senhores feudais eram os legítimos detentores de um poder compartilhado segundo as conveniências do momento. AFONSO HENRIQUES era um apreciador de música embora fosse o seu filho SANCHO quem introduziu na corte portuguesa a arte dos trovadores. Incentivou-os e retribuiu-lhes a magia do canto com a concessão de terras.
Os primeiros tempos do novo reino não foram fáceis. Os nobres ressentiam-se da perda do poder feudal e almejavam retomá-lo; a Igreja Católica combatia o monarca para que ele se submetesse ao poder do papado; o reino de LEÃO e CASTELA bem como os sarracenos combatiam os portugueses. E restava aos reis a aliança com o povo. Só um século após a morte de AFONSO HENRIQUES o ALGARVES foi definitivamente incorporado ao reino de PORTUGAL. E as desavenças entre o povo e o rei e o clero foram se tornando insuportáveis, devido à arrogância, à prepotência e à promiscuidade dos clérigos. Este foi o ambiente propício para a propagação das idéias de JOACHIM DE FIORI na LUSITÂNIA, facilitada pelo casamento de D.DINIZ, trineto de AFONSO HENRIQUES, com a D.ISABEL DE ARAGÃO, que seria canonizada como SANTA ISABEL. D.DINIZ era um homem de grande sabedoria e adotou a doutrina da NOVA ERA, apesar da oposição eclesiástica. Na tentativa de fortalecer os laços nacionais ele tornou oficial a língua predominante - o português - e fundou a primeira universidade.
D.DINIZ decidiu criar a Marinha de Portugal com a intenção de lançar-se ao Atlântico, ele que já mantinha boas relações com os vikings. Discretamente ele contratou vinte genoveses, grandes mestres da marinharia, e começou a construir os primeiros barcos próprios para a aventura da conquista do Oriente, onde se supunha achar-se a prosperidade do PARAÍSO.
Mas, nada impediu que a aliança do papa CLEMENTE V (cuja sede estava em AVIGNON, no sul da FRANÇA) com PHILIPPE IV, O BELO, rei de FRANÇA, culminasse com a prisão e morte na fogueira, de todos os partidários da ORDEM DO TEMPLO, entre 1310 e 1314. A excomunhão atingiu todo o reino de PORTUGAL e os magos que na ESPANHA difundiam as idéias dos templários, como o alquimista catalão RAMÓN LLULL, O ILUMINADO, que escrevera a ARTE MAGNA, destinada a explicar as verdades da fé. Especula-se que o sucessivo fracasso das Cruzadas na PALESTINA, tenha contribuído para minar o poder dos TEMPLÁRIOS, embora o que parece ter sido dominante neste episódio foi o fato deles terem acumulado uma riqueza imensa, ofuscando a dos reis e dos papas, atiçando nestes a inveja e a cobiça. O milenarismo de JOACHIM DE FIORI aceitava a doutrina dos druidas, antigos sacerdotes da GÁLIA e da BRETAGNE, que acreditavam na reencarnação e no poder mágico das plantas, bem como certos princípios do islamismo e até mesmo das lendas pagãs da GERMÂNIA e o mito escandinavo do WALHALLA, refúgio dos deuses, sempre protegidos pelo espírito dos guerreiros mortos em combate, levados para lá pelas VALKÍRIAS. A doutrina da Nova Era dos cavaleiros TEMPLÁRIOS estava destruída mas a procura do SANTO GRAAL, através do culto ao ESPÍRITO SANTO, não podia mais ser exorcizada da alma portuguesa.
No mesmo ano de 1314, junto aos últimos TEMPLÁRIOS, morriam o papa e o rei PHILIPPE IV, O BELO. D.DINIZ, que fingira aceitar a excomunhão, aguardou alguns anos e requereu a instalação da ORDEM DOS CAVALEIROS DE CRISTO, com as mesmas características e normas dos TEMPLÁRIOS e pequenas mudanças cosméticas na liturgia. Uma das mais significativas foi a criação de uma festa popular onde, através de uma encenação teatral, a mensagem da Nova Era de JOACHIM DE FIORI era transmitida. Invocava-se a proteção do ESPÍRITO SANTO, significando a vinda da sociedade igualitária do futuro, a busca da opulência e da sabedoria, o verdadeiro Império do Espírito, segundo o modelo criado por CARLOS MAGNO na FRANÇA e descrito nas lendas de ARTHUR DA TÁVOLA REDONDA na INGLATERRA e defendida no século XVII, nos SERMÕES do jesuíta ANTONIO VIEIRA no BRASIL, ao preconizar o QUINTO IMPÉRIO.
"...considerai que, da riqueza do não querer, nem vos hão de pedir conta os homens; nem vós a haveis de dar a Deus; antes o mesmo Deus, em prêmio do vosso não querer, vos há de dar aquela única bem-aventurança ... na qual tereis tudo o que quiserdes, e nada do que não quiserdes."
VIEIRA fazia cálculos numéricos a partir de datas da História de PORTUGAL e da BÍBLIA, para demonstrar que o advento do QUINTO IMPÉRIO de CRISTO dar-se-ia a partir da ressurreição de D.JOÃO IV.
As Festas do DIVINO ESPÍRITO SANTO, que se espalham pelo PORTUGAL inteiro até hoje, terminavam com a coroação simbólica do imperador da NOVA ERA, na pessoa de um menino ou de uma pessoa muito pobre. A coroação era feita por cinco pessoas: um homem velho e um jovem; uma mulher velha e outra jovem e um menino que seria coroado rei no ano seguinte. Estes eram os símbolos da sociedade ideal, no PARAÍSO terrestre que eles almejavam encontrar. Na Festa do Divino o rei mandava libertar os presos em sinal de reconciliação e paz e ele, junto aos nobres da corte, misturava-se ao povo ao qual fornecia comida e roupa de graça.
Com os tempos, as Festas do Divino foram sendo cerceadas mas, embarcadas nas caravelas, foram-se para a ilha dos AÇORES, de onde vieram para o BRASIL. É bom recordar que o estado do ESPÍRITO SANTO foi colonizado pelos açorianos. Passaram-se quase 700 anos desde então e alguns elos perderam-se na poeira do tempo. Apesar disto, no BRASIL, as Festas do Divino permanecem até hoje com o seu feitio original.
Existe um sentido quase sobrenatural na História de PORTUGAL até o fim do século XV. O feudalismo não foi conhecido na LUSITÂNIA mas o povo português foi, quase sempre, muito defendido pelos seus reis. Os soberanos, influenciados pela doutrina da NOVA ERA, sentiam-se parte daquela gente rude e brava que os sustentava. E ambos, governantes e governados, combatiam sem cerimônia a ostentação eclesiástica, o ócio, a trapaça e o mandonismo da nobreza e o permanente assédio de mouros e espanhóis. Esta aliança sui generis dependia, para o seu êxito, de uma política de sigilo rigorosa. PORTUGAL tornou-se a sede do mais sofisticado núcleo de processamento de informações que até então existira.
Morto D.DINIZ em 1325, sobe ao trono português D.AFONSO IV, cuja contribuição à cultura portuguesa advém da sua iniciativa de estabelecer estreitas relações comerciais com os florentinos, muitos dos quais fundaram prósperos empórios no PORTO e em LISBOA, alguns anos após. Com os mercadores e mascates vieram os frutos da soberba cultura da TOSCANA. Um intenso intercâmbio literário, musical, das artes plásticas e da política, arejou a cultura portuguesa, até então voltada para os assuntos da defesa e da religião, que empurravam o pequeno país à busca dos JARDINS DO ÉDEN. Através do contato com a arte peninsular, os lusitanos conheceram DANTE, BOCCACCIO e principalmente PETRARCHA, cuja influência na literatura lusitana foi tão importante que não mais se ignora que LUIZ DE CAMÕES, o consagrado poeta português, apoiou-se em versos de PETRARCHA para construir alguns dos seus melhores sonetos, como este:
DE PETRARCHA (1304-1374)
Mas poucos sabem que da mente privilegiada de PETRARCHA nasceu a frase imortalizada por FERNANDO PESSOA: "NAVEGAR É PRECISO; VIVER NÃO É PRECISO", usando o verbo precisar não na acepção de necessitar (como, erradamente, quase todos o fazem) mas no sentido correto de ser exato. "A Navegação é uma ciência exata, em comparação com a Vida, que sabemos onde começa e jamais onde termina!"
AFONSO IV protagonizou um episódio que teve repercussões profundas no imaginário português. Desgostoso com o fato de seu filho (D.PEDRO I) ter-se declarado casado (secretamente) com a dama espanhola dª INÊS DE CASTRO, temendo o aumento da influência castelhana, mandou assassiná-la. O suplício de INÊS tornou-se tema nacional, na trova, no romance, na pintura e no teatro, com o contratempo da vingança cruel do príncipe que, assumindo o trono logo em seguida, perseguiu os algozes de sua mulher, coroando-a rainha depois de morta. D.PEDRO I reinou por dez anos e era possuído de delírios freqüentes. Numa das suas alucinações, vislumbrou o país sob as chamas do dragão, sendo defendido pela audácia do seu filho JOÃO. Ocorre que ele tinha dois filhos com este nome, sendo o mais velho tido como da ligação com INÊS DE CASTRO e o outro bastardo. Este último foi educado por d.NUNO DE ANDRADE, mestre da ORDEM DE CRISTO (sucessora dos TEMPLÁRIOS) que, quando o cargo de MESTRE DA ORDEM DE AVIS ficou vago, convenceu o rei a nomear o menino o novo Mestre. JOÃOZINHO tinha apenas 7 anos e o rei, ao concordar com esta idéia maluca, acabou mudando os destinos da nação.
D.PEDRO I faleceu em 1367 e a coroa passou ao seu irmão mais velho, D.FERNANDO que, em 16 anos de reinado, conseguiu dilapidar a riqueza, o orgulho e a coesão da nação portuguesa. Assim que D.FERNANDO morreu, o conflito interno generalizou-se, porque a viúva, DªLEONOR, reivindicou o trono para a sua filha BEATRIZ, casada com D.JUÁN I de CASTELA. Por aclamação, o jovem MESTRE DE AVIS, D.JOÃO, é chamado a defender a pátria o que faz competentemente. Bate-se com o conde de ANDEIRO, amante da viúva, e assume o título de D.JOÃO I. Luta contra os espanhóis, que estavam aliados ao seu irmão JOÃO. O MESTRE DE AVIS tinha 28 anos e uma tropa pequena sob o comando de D.NUNO ALVAREZ, sitiada em LISBOA. A epidemia de peste, contudo, devasta o exército espanhol e D.JOÃO, perseguindo os invasores, derrota-os em quatro combates sucessivos, o último dos quais em 1385, em ALJUBARROTA, próximo a LEIRIA, 110 km ao norte de LISBOA. À BATALHA (como o lugar é conhecido em PORTUGAL), D.JOÃO I seguiu com um troço de 2.000 homens, além das mesnadas de JOÃO FERNANDES, o herói de TRANCOSO, outro combate importante. Sabe-se hoje que a luta não se travou em ALJUBARROTA mas nos campos à volta da capela de S.JORGE. D.JUÁN dispunha de 20.000 homens montados e uma falange de 10.000 franceses da BORGOGNE, GASCOGNE, PICARDIE, BRETAGNE e os lanceiros francos. Em meia hora os portugueses, com o apoio da tropa inglesa de JOHN OF GAUNT, o duque de LENCASTRE e das hostes germânicas, suportou o assédio da cavalaria de FRANÇA dizimando-a e fazendo muitos prisioneiros. Quando a massa dos espanhóis apresentou-se ao combate, já sol-posto, D.JOÃO I foi aconselhado a passar todos os prisioneiros à espada, para não os deixar à retaguarda. Ordem dolorosa que, salvando o reino, deixou o remorso na gente lusitana que deitou silêncio eterno sobre os fatos. Cerca de oito mil bravos teriam morrido no terreno segundo relatos de Froissart: "tout y furent pitoussement occis!"
Neste conflito, decidiu-se também o destino da IGREJA CATÓLICA ROMANA. Desde que o papa CLEMENTE V (o que destruiu os TEMPLÁRIOS) estabeleceu-se em AVIGNON, na PROVENCE, a cisão doutrinária se aprofundara. O cisma, tornado inevitável em 1378, levou a Igreja a conviver com dois papas, o que só terminaria em 1414, com a eleição de MARTINHO V, já que o papado de AVIGNON perdera sustentação após a derrota dos seus aliados am ALJUBARROTA. O duque de LENCASTRE (era o 4º filho do rei EDWARD III da INGLATERRA, neto de PHILIPPE IV, O BELO, o mesmo rei francês que perseguira os TEMPLÁRIOS junto com CLEMENTE V. Ao reivindicar também o trono francês, Edward III iniciou a Guerra dos Cem Anos, como já se disse, que a INGLATERRA venceu durante a maior parte do tempo, humilhando os franceses até o advento de JEANNE D'ARC.
EDWARD III pretendia estabelecer um eixo de comércio e navegação desde CALAIS nos PAÍSES BAIXOS até PORTUGAL, passando pela NORMANDIE, o vale do LOIRE e a AQUITAINE ao sul. Os ingleses venceram a importante batalha de POITIERS em 1356 sob o comando de EDWARD DE GALES, O PRÍNCIPE NEGRo, que morreria em 1376, um ano antes de EDWARD III. Sucedeu-o então RICARDO II que teve sérios problemas com o Parlamento e foi forçado a abdicar em 1399 em favor de HENRIQUE IV de LENCASTRE.
D.JUÁN I de CASTELA (aliado aos franceses e ao papa de AVIGNON) era casado com uma neta de EDWARD III. Assinou a capitulação espanhola em uma tenda árabe, à presença de D.JOÃO I, DE AVIS e do duque de LENCASTRE. Os vencedores fizeram então uma grande festa e assinaram um tratado de eterna e secreta aliança. D.JOÃO I recebe, em troca, a mão de Dª PHYLLIS, dita D'ALÉM CASTRO (ou LENCASTRE), filha do duque. Dª FILIPA, como ficou conhecida, exerceu enorme influência na política portuguesa. Gerou os 8 príncipes chamados de Ínclita Geração, entre os quais o INFANTE D.HENRIQUE, D.FERNÃO, Dª.ISABEL e D.DUARTE (corruptela de EDWARD). Às antigas ambições comerciais de EDWARD III somava-se agora a visão mística de D.JOÃO I, vislumbrando como destino, a missão de encontrar o caminho para o Oriente, onde estariam as portas do PARAÍSO, dominado pelo poder do ESPÍRITO SANTO. Instigado por Dª.FILIPA, D.DUARTE, diplomata, percorreu diversos reinos em busca de fundos para as empreitadas marítimas do seu povo. FERNÃO, guerreiro, participou da expedição a TÂNGER em 1437 mas foi aprisionado e morto pelos mouros que queriam trocá-lo pelo território de CEUTA. O INFANTE D.HENRIQUE, seu irmão, que se tinha preparado para ser padre, exilara-se no ALGARVE, onde fundou uma escola de marinharia, próximo ao promontório de SAGRES. Foi dele a decisão de não negociar a vida de FERNÃO com os bérberes.
Do promontório nasceu um grande movimento econômico que levou a civilização européia ao resto do mundo, revelando os ideais de "fraternidade essencial da humanidade", expressa pelos TEMPLÁRIOS. O INFANTE D.HENRIQUE, que foi o mais notável dos portugueses, viveu em LAGOS, próximo ao cabo de S.VICENTE. Ali os navios eram armados e foi de LAGOS que saiu GIL EANES em 1434 para conquistar o cabo BOJADOR, considerado o limite do mar navegável até então. Como acontecia com todos os que se dispunham a marear, a escravidão era a pena dos derrotados, quando não podiam pagar o resgate. O Infante comandou pessoalmente a divisão da primeira carga de escravos africanos (235 negros) em LAGOS. Todo o ALGARVE havia sido povoado pelos árabes verdadeiros, vindos do IÊMEN, não pelas hordas bérberes e marroquinas. No século XII, a cidade de SILVES, por exemplo, era a mais notável de PORTUGAL; requintadíssima, de bons lavradores e possuía uma rica elite. Todos faziam versos, mesmo os mais humildes aldeões e tinham um cancioneiro muito bom.
Próximo dali ficava a VILA DO INFANTE, que era em S.Vicente e não em SAGRES. Os mareantes em apuros refugiavam-se na angra de SAGRES mas não havia ali qualquer apoio; só em SÃO VICENTE podiam safar-se das aflições procelárias. S.VICENTE era passagem obrigatória de todos os barcos vindos do MEDITERRÂNEO mas perdia para CADIZ, que dispunha de melhores facilidades. SAGRES, por seu turno, era inóspito, onde só os deuses podiam viver. E do alto via-se o último horizonte. Por volta de 1460, sob os ideais da ORDEM DE CRISTO (numa época em que o papa era NICOLAU V, aliado dos portugueses), o INFANTE deu segurança, continuidade, organização e durabilidade aos projetos de navegação dos portugueses. Unificou esforços isolados dos navegadores e os transformou em estudos permanentes, ligados à política de sigilo do reino lusitano, planejando e construindo barcos e reunindo informações de todas as fontes possíveis, sobre todos os assuntos ligados à marinharia. Cerca de 300 sábios viveram lá, entre os quais CRISTÓVÃO COLOMBO, todos dedicando-se a construir os sonhos do QUINTO IMPÉRIO das profecias.
Enquanto D.HENRIQUE cuidava do ALGARVE, AFONSO V, seu irmão, governava a nação, com a ajuda dos judeus, que ocuparam altos cargos na política e fora dela. Afinal, os judeus sefarditas estavam na península deste o século II AC. O casamento de FERNANDO II do reino de ARAGÃO com ISABEL, A CATÓLICA, de CASTELA, desencadeou um intrincado jogo de alianças, com AFONSO V aproximando-se do seu cunhado o duque CARLOS, O TEMERÁRIO da BORGOGNE, visando destronar o rei LOUIS XI de FRANÇA e avançar sobre o reino de CASTELA. Perde a batalha de TORO para os espanhóis e desiste.
O mundo mudava depressa. CONSTANTINOPLA caíra em poder dos turcos de MAOMÉ II em 1453, AFONSO V morrera em 1481 sendo substituído por JOÃO II, O PRÍNCIPE PERFEITO, que dera impulso sem precedentes às grandes navegações; os reis católicos da ESPANHA expulsaram definitivamente os mouros de GRANADA em 1492, no mesmo ano em que CRISTÓVÃO COLOMBO, por eles financiado, partia para conquistar a AMÉRICA e o espanhol RODRIGO BÓRGIA sagrava-se papa em ROMA com o nome de ALEXANDRE VI, para uma vida de nepotismo e devassidão. Seu irmão CESAR, licencioso e cruel, servira de modelo para O PRÍNCIPE, a grande obra literária de NICOLÒ MACHIAVELLI e a sua irmã LUCRÉCIA sustentara a péssima reputação familiar. Ainda em 1492, os reis de ESPANHA iniciaram a perseguição aos judeus e cederam à ferocidade do monge TORQUEMADA o comando dos TRIBUNAIS DA SANTA INQUISIÇÃO. Dois anos depois, o papa ALEXANDRE VI impõe a PORTUGAL um Tratado assinado na cidade de TORDESILHAS, pelo qual o novo mundo seria dividido entre PORTUGAL e ESPANHA. CATARINA DE ARAGÃO, filha da rainha ISABEL de ESPANHA casa-se com o controvertido HENRIQUE VIII, rei da INGLATERRA, vencedor dos franceses e fundador da IGREJA ANGLICANA e a quem é atribuída a composição da famosa GREENSLEAVES (cujas variações reconstituímos neste disco). ISABEL DE ARAGÃO, irmã de CATARINA, casa-se com D.MANUEL, o futuro rei de PORTUGAL, em cujo reinado (1495 a 1521) o Brasil foi oficialmente descoberto.
A morte do PRÍNCIPE PERFEITO encerrava em Portugal 3 séculos de submissão aos ideais dos TEMPLÁRIOS, o que se constata, por exemplo, na decisão de D.JOÃO I ao erigir o monumento à batalha de ALJUBARROTA próximo à cidade de ALCOBAÇA, junto ao MOSTEIRO DE S.BRUNO e S.BERNANDO, o maior empreendimento português dos séculos XII e XIII, com o seu claustro impressionante. Naquele local, D.JOÃO I mandou que se enterrassem os restos de D.PEDRO I e de INÊS DE CASTRO.
Se desde 1480 haviam chegado a PORTUGAL cerca de 120.000 judeus perseguidos pelos espanhóis, a partir da ascensão de D.MANUEL I, O VENTUROSO, a situação agravou-se após as Ordenações reais, que impunham o perdimento dos bens, a proibição quase absoluta da emigração, o sequestro das crianças judias e a conversão forçada e coletiva do povo judeu ao catolicismo. Tão pesados castigos pareceram suaves em 1506, durante a epidemia de peste em LISBOA. Reunidos em oração, fiéis cristãos imaginaram ver evidências de um milagre, num altar dominicano. Os frades, ao serem descobertos fraudando o "milagre", atiçaram a turba contra milhares de judeus, que foram caçados, torpemente combatidos e mortos nas fogueiras, tendo saqueados os bens, violadas as mulheres e dilaceradas as crianças. Nada impediu que grande número deles tivesse se espalhado pela FRANÇA e HOLANDA e vindo para o BRASIL, assim como os seguidores da ORDEM DE CRISTO e do culto do ESPÍRITO SANTO tinham ido para os AÇORES e depois para a costa brasileira, trazendo com eles as tradicionais festas do Divino.
A cultura que se desenvolveu nos três grandes polos irradiadores (INGLATERRA, FRANÇA e PORTUGAL), embora de origem diversa, foi transposta ao BRASIL, mantendo a relevância e conservando-se predominante quando confrontada à cultura local e a dos escravos africanos posteriormente introduzidos no país. Esta cultura foi produto dos movimentos políticos, sociais, militares e religiosos e refletiu o comportamento das elites e do povo face a eles. Portanto, embora possa parecer irrelevante conhecer os caminhos e a seqüência destes movimentos ao longo do tempo, esta análise ajuda-nos a perceber os elos que uniram povos aparentemente distintos, esclarecento algumas das razões pelas quais a música que deles é oriunda tem tantas formosuras e parecenças.
Novembro de 2000
VIEIRA: SERMÃO SEGUNDO, DE S.FRANCISCO XAVIER
Questa anima gentil che si diparte,
anzi tempo chiamata a l'altra vita,
se lassuso è quanto esser de´gradita,
terrà del ciel la più beata parte.
DE CAMÕES (1524-1580)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente
e viva eu cá na terra sempre triste.
A alma minha gentil que agora parte
tão cedo deste mundo à outra vida,
terá certo no céu grata acolhida,
indo habitar sua mais beata parte.