NOTURNOS - PARTE II


POR LAURO PINTO



"FRYDERYK CHOPIN DEU AO MUNDO
UM TESOURO EM FORMA DE MÚSICA;
O MUNDO DEU A CHOPIN
UM TESOURO EM FORMA DE PESSOAS."
TAD SZULC

Em janeiro de 1847, PARIS tinha pouco mais de 1 milhão de habitantes; era o centro do mundo político, social, cultural e até mesmo financeiro da Europa, apesar das dificuldades econômicas que LOUIS-PHILIPPE I - Roi des français - vinha enfrentando, cujo agravamento precipitou a sua deposição no ano seguinte. A cidade abrigava revolucionários de todas as tendências, patriotas exilados, fugitivos da HUNGRIA, TURQUIA, GRÉCIA, DALMÁCIA, ALSÁCIA ou POLÔNIA, de onde viera FRÉDÉRIC CHOPIN, o pianista que há 16 anos adotara PARIS como sua. Ele residia num luxuoso e bem decorado apartamento na PLACE D'ORLÉANS, ao lado do que era habitado pela romancista GEORGE SAND, sua companheira desde 1838. CHOPIN jamais se notabilizara pela saúde mas os últimos tempos estavam cobrando dele um penoso pedágio, em sucessivas recaídas que a homeopatia do dr.CRUVEILHIER não conseguia mais conter. A tosse piorara e ele passava dias prostrado, prejudicando as suas aulas e a disposição para compor. Apesar disso, estava de bom humor e aproveitava todas as oportunidades para sair, visitar pessoas, ir a concertos e festas ou fazer refeições no AU ROCHER DE CANCAL, o melhor restaurante da cidade. Já se iam dois meses desde que deixara, pela última vez em sua vida, a casa de campo de SAND em NOHANT, para enfrentar o frio inverno da capital. Em mais quatro meses a sua vida tomaria um definitivo ritmo descendente. O fim estava bem à vista do grande homem. Contudo, ele já era tão maior do que a sua pequena estatura mostrava, que vale a pena registrar alguns poucos passos da sua trajetória, para que se possa ver o quão importante era a sua presença para a cultura mundial, sintetizada na atmosfera intelectual parisiense, como a sua música mais íntima passara a fazer parte do universo de pessoas com sensibilidades tão diversas.

Naquela ocasião, CHOPIN levava uma vida confortável, com uma carruagem, um criado permanente e o convívio assíduo de ADOLF GUTMANN, o melhor aluno dele, sempre atento às suas excentricidades e necessidades. GUTMANN não o deixava sair sem luvas, cachecol e os elegantes sobretudos da loja DAUTREMONT, os melhores da Europa. Além do AU ROCHER, eles foram jantar três vezes no CAFÉ DU DIVAN na 3, RUE LE PÉLÉTIER, em frente à ÓPERA, acompanhados do poeta THEÓPHILE DE GAUTIER e do romancista HONORÉ DE BALZAC, cujo amor ao Bordeaux era comparável à finíssima conversa sobre as suas novas obras, reunidas na série intitulada A COMÉDIA HUMANA, que há 5 anos vinha escrevendo. Neste dia o assunto era A PRIMA BETTE, o último romance a falar da sociedade parisiense, dominada pelo poder do dinheiro e pelas paixões mais densas. Numa dessas noites apareceu por lá ALEXIS DE TOCKEVILLE, um dos mais influentes escritores políticos do seu tempo; o assunto logo resvalou para a democracia nos ESTADOS UNIDOS, tendo CHOPIN investido na opinião de que os frescos ventos da cultura norte-americana não o excitavam a ponto de tornarem mais interessantes os seus ideais estéticos.

Dias depois, CHOPIN desejou rever o velho amigo FRANÇOIS-RENÉ CHATEAUBRIAND, um dos escritores que exerceu maior influência na literatura e no espírito franceses da época. Amante de Mme JULIETTE RÉCAMIER, era nos saraus que ela organizava à RUE DE LA CHAISE, que FRANÇOIS se encontrava com os intelectuais que aceitavam o pretexto da música para discutir filosofia e política e depois falar bem de si mesmos! Tivera o privilégio de ser ministro e embaixador e era um monarquista ferrenho. Aos 79 anos, terminava de escrever uma obra extraordinária: MEMOIRES D'OUTRE TOMBE, que fascinou CHOPIN àquela noite, mais do que qualquer outra coisa.

Os convidados comiam biscoitos e queijos e bebiam laranjada, vinhos e xaropes diversos. Depois, declamavam-se e discutiam-se os temas literários e a música fechava a soirée. CHARLES-AUGUSTIN SAINTE-BEUVE, o principal crítico literário de FRANÇA, grande amigo e influenciador das idéias socialistas de GEORGE SAND, teve a delicadeza de indagar a razão da ausência dela no sarau. CHOPIN explicou que havia questões familiares a tratar em NOHANT, a respeito do noivado de SOLANGE, filha dela, mas que dentro de um mês ou pouco mais, GEORGE estaria em PARIS, o que de fato ocorreu.

Eis que trazido pelo brilho frio e cristalino daquela noite, surge ALPHONSE DE LAMARTINE, acompanhado de DELPHINE DE GIRARDIN, esposa de um editor de jornal muito rico e poderoso. Ambos retribuíam a recente visita dos anfitriões às festas que tinham o hábito de organizar em seus próprios salões e que contribuíam bastante para a habitual maledicência parisiense. LAMARTINE era um poeta de 57 anos, muito inventivo e que acabara de publicar a HISTÓRIA DOS GIRONDINOS, o famoso grupo político chefiado por BRISSOT, CONDORCET e VERGNIAUD, que se postava à direita na assembléia da Convenção, em 1791/92. Eles chegaram ao poder em 1792 com ROLAND, mais tarde demitido pelo rei LOUIS XVI. À GIRONDE contrapunha-se a MONTAGNE, orientada pelas idéias brilhantes de ROBESPIERRE, MARAT e DANTON, que exigiram a cabeça dos líderes girondinos, guilhotinados em seguida, assim como aconteceu com o rei e, mais tarde, com MARIA ANTONIETA.

Logo a seguir chegou FRANÇOIS PONSARD, austríaco de 33 anos, escritor de tragédia, comédia, drama e poesia. Dezenove anos após aquela noite ele publicará LE LION AMOUREUX, onde serão analisadas as disputas entre a GIRONDE e a MONTAGNE, que tantas tragédias proporcionou à FRANÇA, ampliando as pesquisas do amigo LAMARTINE, mestre com quem muito discutiu e aprendeu.

Apesar da pouca intimidade com os temas políticos, CHOPIN interessava-se pela discussão e pilheriava teatralmente, fazia trocadilhos e ironias que deliciavam a todos. Enquanto isto, LAMARTINE, com a sua voz sumítica, dizia o lindo e inédito poema sobre a esmola:

        "...toi qui sais de quelle humble main
        s'échappe la secrète obole
        dont le pauvre achète son pain;...
        Notre coeur, qui pour eux t'implore,
        a l'ignorance est condamné;
        car toujours leur main gauche ignore
        ce que leur main droite a donné."

Para o aplauso irrefreado de SAINTE-BEUVE. MME JULIETTE resolve então que era chegada a hora da música, concedida a CHOPIN como honra. Antes porém, CHATEAUBRIAND pede a palavra e recita sob silêncio absoluto:

"Era uma dessas noites cujas sombras transparentes parecem recear esconder o belo céu da Grécia, que não era a treva completa mas apenas a ausência da luz. O ar estava doce como o leite e o mel e sentia-se, ao respirar, um charme inexcedível...Sentado no vale, o pastor contemplava a lua, no meio do brilhante cortejo de estrelas e se rejubilava com uma emoção sem limites."

Era como a senha para o delírio. Sentado ao piano, CHOPIN anuncia que tocará as suas obras mais recentes, publicadas havia poucos dias, os NOTURNOS OPUS 62, as duas últimas composições importantes que ele escreveu. Em seguida, ainda no clima do êxtase, ele tocou os NOTURNOS OPUS 48, compostos em 1841, declarando que o segundo deles era a sua obra preferida e que, por isto, dedicava naquela noite à hospitalidade de MME JULIETTE. Os Noturnos eram uma das principais marcas da estética chopiniana. O termo fora criado pelo irlandês JOHN FIELD para definir obra introspectiva, lenta e inspirada nos desenhos melódicos do canto lírico. CHOPIN, ao assimilar o gênero, deu-lhe características próprias, como os ornamentos o contraponto e as invenções melódicas e harmônicas, muito próximas dos conceitos que perseguiu quanto compôs os Estudos e os Prelúdios. Ao tratar os temas noturnos nos saraus a que comparecia, CHOPIN não se privava de improvisar sobre si mesmo, permitindo-se variar a interpretação de acordo com o humor e a ocasião.

Talvez por intuir que não viveria muito mais, alternava-se entre frases jocosas e mórbidas e improvisava sobre temas conhecidos. Mme Delphine, que anos atrás organizara o célebre duelo pianístico entre LISZT e THALBERG, ameaçou fazê-lo de novo, tendo CHOPIN como contendor. Ele retrucou dizendo que não havia precisão disto e ali mesmo imitou o jeito erecto de LISZT, depois HUMMEL e ainda ROSSINI: "Nous sommes ici...moi et les outres!"

Ainda àquela noite Chopin tocou outras coisas, MOZART, ALKAN, BEETHOVEN; depois ouviu-se PIERRE-JOSEPH ZIMMERMAN, que era professor de piano do Conservatório de Paris e a voz sempre cristalina de MARÍA MALIBRAN, a soprano espanhola irmã de PAULINE VIARDOT, uma das amigas mais antigas e fiéis de CHOPIN.

À manhã seguinte, cansado, CHOPIN não deu aulas. Tomou as poções mágicas que a homeopatia ditava e ficou todo o dia em lastimável estado. À noite porém reanimou-se, com a chegada do seu amigo polonês, BOHDAN ZALESKI e sua mulher. Em novembro passado, CHOPIN compusera uma peça para a liturgia da missa de casamento deles, tocando-a no órgão na igreja. Neste mesmo dia chegara a confirmação da grande festa polonesa que teria lugar no HÔTEL LAMBERT, pertencente ao príncipe ADAM CZARTORYSKI, líder dos poloneses exilados. Ex amante da imperatriz russa (mãe do czar ALEXANDRE) ADAM agora intitulava-se chefe da família real no exílio; era um dos principais amigos e patrocinadores de CHOPIN, que tinha convite permanente para as reuniões das noites de sábado em sua mansão. O HÔTEL LAMBERT era a residência mais luxuosa de PARIS, situada a leste da NOTRE DÂME, no final da pequena ilha de SAINT LOUIS no rio SENA. Construído no século XVII, o HÔTEL tinha 5 andares de cômodos amplos, arejados e desfrutava a mais linda vista da cidade. O local estava preparado para receber mais de 3.500 pessoas e isto muitas vezes aconteceu, como nas festas para angariar fundos de ajuda aos refugiados. Em geral os convidados espalhavam-se pelo jardim, imponente e bem iluminado, em torno das mesas sempre abastecidas da comida típica da POLÔNIA.

Ali residira VOLTAIRE (FRANÇOIS-MARIE AROUET), que fora o gênio mais universal e influente do século XVIII e deixara marcas indeléveis de sua passagem por lá. Morrera em 1778 (3 anos antes da queda da BASTILHA), aos 84 anos e escrevera muitas das obras primas da literatura francesa. Estudara com os jesuítas, fora preso algumas vezes, exilara-se durante longo tempo mas retornara a PARIS. Na prosa, só BOSSUET pode ser comparado a ele. Como historiador, compreendera que o estudo do espírito humano devia ser o seu principal objetivo. Por isto a descrição dos costumes, usos, leis, literatura e espiritualidade, ocupam mais espaço em suas obras do que nas dos seus antecessores. Escreveu obras históricas e dramáticas mas sobretudo cartas, poesias leves e opúsculos polêmicos, num estilo admirável, fino e satírico. CHOPIN tinha muito apreço por VOLTAIRE e costumava citá-lo quando se discutia a forma de transpor para a música outras formas de linguagem auditiva, visual ou tátil. Por sua vez, o príncipe ADAM gravara em bronze uma das frases de VOLTAIRE de que mais gostava colocando-a à entrada de uma das varandas:

"A noite chegava e era bela; a atmosfera, uma abóbada de azul transparente, semeada de estrelas doiradas; este espetáculo sempre é tocante para as pessoas e inspira nelas um doce sonho..."

Sempre que CHOPIN estava lá (e isto era freqüente), ADAM pedia que tocasse os noturnos e as mazurkas, nostálgica preferência que transportava o seu espírito inquieto à terra natal. A comemoração de Ano Novo no Hôtel contara com a presença de CHOPIN, levado pelo bom amigo o conde WOJCIECH GRZYMALA, um gordo, divertido e animado polonês de cara redonda que usava um paletó sempre grande. Tinha 54 anos o fundados da Sociedade Literária Polonesa da qual CHOPIN participava ativamente. Vivia da especulação financeira: aplicava na bolsa, ganhava mais do que perdia.

Agora, o príncipe ADAM anunciava outra festa para sábado, 23 de janeiro e a hora era chegada. O dia amanhecera claro e frio, a cidade recoberta de um suave manto branco. Aos poucos a temperatura aumentara, não ventava e o calor do sol, maior do que nos dias passados, prenunciava uma noite mais agradável. O príncipe esperava entre 300 e 400 pessoas, para o primeiro sarau polonês do ano. Às oito horas as carruagens já faziam fila junto aos portais de madeira entalhada, trazendo os primeiros convidados: o conde LUDWIK PLATER e sua filha PAULINE (fora a primeira aluna de CHOPIN em 1832); a antiga amante de KRASINSKY, a belíssima cantora polonesa, condessa DELFINA POTOCKA, outra fiel a antiga amiga de CHOPIN, a quem ele dedicou o 2º CONCERTO PARA PIANO E ORQUESTRA; os cantores LUIGI LABLACHE e GIOVANI RUBINi; ZYGMUNT KRASINSKY acompanhado da viúva LAURA CZOSNOWSKA, sua atual amante, ela grande amiga da família CHOPIN e que no ano anterior despertara em GEORGE SAND uma enorme crise de ciúmes quando visitara a herdade de Nohant.

Mais atrás chegava EUGÈNE DELACROIX, presença obrigatória nas festas de PANAME, autor do mais famoso retrato a óleo de Chopin e um dos pintores de maior importância na Europa. Naquela noite ele conversara com CHOPIN a respeito da pintura que estava terminando no teto do PALAIS DE LUXEMBURGO, onde retratara CHOPIN e GEORGE SAND como os personagens DANTE e a belíssima ASPÁSIA de MILETO, amiga de SÓCRATES e conselheira de PÉRICLES. Dias mais tarde CHOPIN e SAND foram ver as pinturas.

O príncipe ADAM tinha contratado uma sinfonieta para tocar durante o jantar; o salão aos poucos foi ficando tinto de vermelho e branco, as cores polonesas, predominantes nas roupas das senhoras. Circulando pelo interior do palácio via-se o príncipe de WIRTEMBERG, cunhado de ADAM, conversando com o banqueiro JAMES ROTHSCHILD, o homem mais rico da FRANÇA, numa roda onde também se achavam NATHANAEL (filho de JAMES) e grande amigo de ALEXANDER CZARTORYSKI, filho de ADAM. Próximo estavam o próprio ALEXANDER e sua mulher, que também era sua prima, nascida MARCELINA RADZIWILL, pianista de talento invulgar, aluna de CHOPIN e herdeira fidelíssima do seu toque peculiar, conversando em polonês com o padre ALEKSANDER JELOWICKI que também era um editor de obras em língua polonesa.

Numa sala contígua estavam ADAM MICKIEWICZ, o maior poeta polonês, o pianista JULIAN FONTANA, o barítono STEFAN GROTOWSKI e o príncipe SAPIEHAS, pertencente a outro ramo da realeza polonesa. A vida inteira Chopin dependeu dos conselhos de Adam e da prestimosidade de Fontana; eles estavam ali, jogando o estranho jogo de whist, enquanto Chopin, de certo modo, perdia as suas últimas apostas.

Havia ainda os grupos não poloneses, onde predominavam os escritores. ALEXANDRE DUMAS era um deles. Aos 44 anos ele já tinha fama de bom e prolixo escritor. A sua obra dramática HENRIQUE III fizera muito sucesso e ele estava sendo comparado a VICTOR HUGO que, sentado em outro sofá, mantinha acesa conversa com CHATEAUBRIAND. Quando CHOPIN passou, acompanhado por GRZYMALA, DUMAS o pegou carinhosamente pelo braço e, com a voz trovejante, recitou a história do PÁSSARO PRISIONEIRO:

        "Enfant, vous avez pris un oiseau dans un champ,
        et vous, voilà joyeux, et vous criez victoire!
        Et le pauvre petit, dans une cage noire,
        se plaint, et vous prenez sa plainte pour un chant."

concluindo: "Meu caro FRÉDÉRIC, admiro a sua higidez moral, à qual se alia a sabedoria. Diz-me CHATEAUBRIAND que este ano, é inevitável, teremos mudanças. O próprio LAMARTINE reconhece que as colheitas estão ruins há 2 anos e o preço do pão subiu 3 vezes. Os trabalhadores estão arruinados e esmolando. Por que não usa a sua música em favor dos pássaros prisioneiros?" CHOPIN, atônito, balbuciou qualquer coisa em polonês, dirigindo-se a GUSTAVE FLAUBERT, que retrucou: "É engraçado que estas boas pessoas aqui durmam em paz porque lá fora uma nova 1789 está se preparando." GRZYMALA concordou dizendo que os ingleses já não aplicavam mais na FRANÇA e assim o rei, em breve, não teria fundos.

CHOPIN esquivou-se, educado, e aproximou-se da condessa POTOCKA e do violoncelista FRANCHOMME, para combinar um encontro no mês seguinte, para tocarem juntos, pela primeira vez, a recém editada sonata para violoncelo e piano, dedicada por CHOPIN a FRANCHOMME. Ao lado dela estava PROSPER MERIMÉE, agora com 44 anos e comemorando 3 de Academia. Insuperado como novelista ele também escrevia contos esplêndidos, muitos de caráter histórico e estudos sobre a arte. E era justamente disto que falavam, com o paciente assentimento de ALFRED DE VIGNY, o longilíneo e elegante cinquentão, ex oficial e já um desiludido da vida. Os problemas familiares aliados à hostilidade da Academia levaram-no a um isolamento quase completo. Raro vê-lo em reuniões como aquela. À época, escrevia poemas muito bons nos quais deplorava o isolamento a que se condenavam os gênios. A cor e o sentimento dos seus versos eram o que de melhor se fazia na poesia filosófica. Escrevera também para o teatro e fizera traduções além de um romance histórico e contos. Era apaixonado pela música de CHOPIN e esperava ouvi-la aquela noite.

Ah, o grande Victor Hugo. Onde estará agora, já que o vimos de relance. Aos 45 anos era o Chefe da Escola Romântica e já havia rompido com as regras da literatura clássica. Nenhum poeta lírico elevara-se mais alto, fora mais talentoso e variado e de imaginação mais rica. O prazer completo era ler ORIENTALES, FEUILLES D'AUTOMNE, CHANTS DU CRÉPUSCULE, VOIX INTÉRIEURES, LES RAYONS et les OMBRES. Escreveu muita prosa e drama, contos e romances como NOTRE-DAME DE PARIS, que o imortalizou. Uma barba compacta emoldurava o rosto quadrado; sempre de colete marron de onde pendia um cordão de ouro com um relógio. Dois anos antes daquela noite ele seduzira a esposa de um pintor chamado BILLARD. O casal divorciara-se mas HUGO continuou íntimo da mulher e fez com que a sua própria esposa a tomasse como protegida em sua casa. Estes pequenos escândalos com HUGO eram freqüentes e faziam as delícias da rede de intrigas parisiense. Contudo, os deslizes amorosos pareciam fazer refluir nele a perfeição estética do verso e da invenção, aquilo que admirava sobre tudo o mais no amigo CHOPIN e de que ele era tão bem servido. Àquela noite, entre outras coisas, pode-se ouvir um de seus versos perfeitos:

        "Oh! l'amour d'une mère!-amour que nul n'oublie!
        Pain merveilleux qu'un Dieu partage et multiplie!
        Table toujours servie au paternel foyer!
        Chacun en a sa part, et tout l'ont tout en entier!"

Um dos últimos a chegar foi THÉOPHILE GAUTIER, o jovem e romântico poeta, um ano mais moço do que CHOPIN, dono de uma versificação bem acabada, de um sábio emprego dos ritmos e uma enorme riqueza de rimas. Escrevia crítica, contos de viagem e romances. Era uma figura de olhar penetrante. O rosto grande, escondido pela barba cerrada, um colete sempre terminado numa grande gravata borboleta, não declamava: representava, como um ator de teatro. E foi ele o primeiro a apresentar-se perante os convidados. Um a um os artistas foram trazendo a sua arte, enquanto CHOPIN, absorto, perdia-se em pensamentos distantes. Valia-se da imaginação para reconquistar a pátria, para galopar nos prados proibidos, para voar aos pássaros distantes, para sonhar os sonhos de sua protetora GEORGE (agora prestes a deixá-lo para sempre) e para conhecer um lugar onde a linguagem fosse apenas a música. Na sua vez, sentou-se ao piano não mais com aquela alegria dos dias anteriores. Estava melancólico. Tocou árias de MOZART, BELLINI e CHERUBINI para VIARDOT e LAURA-CINTI DAMOREAU cantarem. Depois fez o que se esperava dele: tocou os quatro NOTURNOS DO OPUS 37 E 55, como se um anjo estivesse ali. O piano era um PLEYEL novo, de sonoridade aveludada, o seu preferido. Quis levantar-se depois mas o príncipe ADAM pediu-lhe : "só mais um por esta noite." CHOPIN sorriu e disse à platéia que improvisaria sobre um antigo tema polonês. Toca então uma versão do NOTURNO OPUS 72, publicado postumamente, que tinha sido o primeiro noturno que escrevera, vinte anos antes. Neste dia, ao terminar, deixou com as pessoas uma enigmática frase de Pythagoras: "Le commencement est la moitié du tout."

Muitas pessoas estavam lá, anônimas e ele era o centro do universo, a lágrima do Criador brilhando na face de cada uma delas, na emoção que se renova permanentemente como agora.

Outubro de 2000