RACHMANINOV


POR LAURO PINTO


Sans la musique,
la vie serait une erreur.

Nietzsche - 1844-1900

O Homem possui, em cada retina, cem milhões de células receptoras para processar imagens mas apenas quatorze mil células foram desenhadas para distinguir os sons que chegam aos nossos ouvidos. A audição foi urna das últimas conquistas do organismo humano e ainda tem muito a evoluir. A transmissão do som até os receptores internos, na caixa craniana, é essencialmente mecânica. Portanto, não é difícil perceber que os sons exercem urna pressão sobre os tecidos de todos os seres vivos. Como estes tecidos também vibram e produzem eles mesmos os seus sons próprios, também não é um segredo que os sons do mundo podem harmonizar, destruir, acomodar, vivificar, agonizar ou enlouquecer os habitantes da Terra. Os vegetais e os organismos simples não têm mecanismos de defesa contra os sons hostis; os animais, contudo, foram desenvolvendo recursos para evitar ou amplificar as ondas que lhes chegavam, quase sempre como auxílio à sobrevivência. O processo de escuta entrou em colapso quando o meio liquido deixou de ser o único habitat dos animais. Esta adaptação demorou alguns milhões de anos e chegou ao auge com os gigantescos dinossauros Parassaurolophus, vegetarianos de 3 toneladas e longas cristas dotadas de uma espécie de trombeta interna que ressoava os seus urros agudos e poderosos. Isto era necessário porque o ar propaga o som 4 vezes mais devagar do que a água e os animais precisavam comunicar-se. Esta "conversação", primitiva de mais de 65 milhões de anos, foi o começo de tudo o que hoje conhecemos como música.

O Homem foi o animal que melhor usou e melhor desfruta dos sons que a natureza prodigaliza. Hoje em dia ele não precisa mais usar as orelhas como um cervo, que é capaz de dobrá-las, independentemente, em todos os sentidos possíveis, para identificar a direção e a distância em que se encontra a fonte produtora dos sons que ouve. O Homem está preparado para perceber os sons que lhe chegam pela frente e no mesmo plano. As imagens sonoras que vêm de cima ou de trás são muito prejudicadas. Entrementes, os fisiologistas descobriram que o lado direito do cérebro é o que processa os sons simultâneos, esclarecendo a hierarquia das relações harmônicas. Quando uma fonte sonora emite um som, outros sons de intensidade menor são gerados a partir dele, com freqüências múltiplas, ou seja, com alturas muito maiores: são os sons harmônicos. A maior intensidade do som primitivo faz com que ele seja preponderante mas os bons ouvintes são capazes de perceber a existência de sons mais agudos até o terceiro ou quarto harmônico. As partes esquerdas do cérebro dedicam-se à compreensão da fala, que se converteu na forma mais sofisticada de comunicação que os animais conseguiram realizar.

Esta conversa aparentemente incompreensível, parece-me necessária para explicar a música que vamos ouvir. Atentem: os regatos produzem sons agradáveis, como os pássaros também são capazes de fazer ou mesmo a brisa com o seu assobio. Tiradas as exceções, a natureza em geral produz barulho, não música. Esta é o conjunto de sons organizados de forma a criar sensações peculiares, agradáveis ou não, segundo critérios de arranjo bastante simples (se considerarmos a lógica matemática que o envolve) mas de concepção nada óbvia. Assim, a música é considerada boa se é escutada favoravelmente pelas pessoas e nelas causa um impacto positivo. Independente de como a música foi criada, se ela obedece ou não às determinações teóricas, é fundamental que seja acolhida pelo público. Em acordo com a época e o local, a música vem tendo maior ou menor aceitação. De todo o jeito, os conhecimentos colocados à disposição dos músicos ocidentais têm levado a sua música a refletir-se melhor no íntimo dos ouvintes, talvez por interagir com as moléculas próprias que fazem os corpos e as mentes funcionarem desta ou daquela maneira.

No dia 2 de abril de 1873 nascia no norte da RÚSSIA, SERGUEÏ VASSILIEVITCH RACHMANINOV. Desde cedo ele foi encorajado a tocar piano e descobriu-se que ele tinha uma aptidão incrível. Aos 12 anos ele iniciou os estudos regulares em Moscou e seis anos depois tornar-se-ia o mais laureado aluno do Conservatório. Data desta época o seu 1º Concerto para piano e orquestra. Ali Rachmaninov estudou com ARENSKY (discípulo de RIMSKY-KORSAKOV) e com TANEIEV (discípulo de TCHAIKOVSKY). O seu extraordinário desempenho como pianista, de certo modo ofuscou a sua composição mas apenas no que tange à escrita para a orquestra, se aqui a comparamos aos dois maiores no gênero: RIMSKY-KORSAKOV e TCHAIKOVSKY. Contudo, o sabor de suas melodias está tão acima do resto que não é mais possível ignorar a força que se desprende delas.

Critica-se RACHMANINOV, inexplicavelmente, por causa de suas qualidades! Pelo fato de ter prolongado por quase meio século a existência da Escola Romântica, ele é acusado de não ter dado ouvidos à música contemporânea e à renovação introduzida por um outro russo, IGOR STRAVINSKY e pelo austríaco ARNOLD SCHÖENBERG, como se fosse obrigatório mudar. "Além do mais", diz-se ainda, ele inundaria a sua composição de melodias "água com açúcar", impregnadas de um sentimentalismo piegas cujo compromisso maior seria arrancar lágrimas dos espíritos susceptíveis. Ele ainda é acusado de exacerbar os aspectos sombrios da música, reflexos, talvez, de seu temperamento introspectivo. E, afinal, nada seria tão enganador quanto a alardeada dificuldade técnica das suas obras, posto que, conhecendo o piano como poucos, sempre encontrava as melhores soluções para os mais complexos problemas expressivos. Instado a aderir à onda de destruição do Romantismo, ele se aferrava às suas convicções e retrucava citando ALBERT EINSTEIN: "Para que tanta pressa? O futuro sempre nos chega a uma velocidade de 60 minutos por hora!!!"

Neste instante da discussão, volto-me ao inicio para enfatizar o caráter comunicativo da música de RACHMANINOV. Em nenhum momento ele pretendeu construir monumentos sonoros que viessem a tornar-se as delicias dos intelectuais, a tortura mental dos pesquisadores e a consagração dos escritores de teses doutorais. O seu universo era outro: ele decidiu-se por falar ao coração das pessoas, como antes o fizeram Chopin e Liszt, que tanto admirava. E a sua música, sob este aspecto, funciona perfeitamente até hoje, cumpre o que promete. E se, eliminando a pequena classe dos críticos musicais, perguntarmos a qualquer um sobre a música que povoaria os seus incontáveis sonhos numa ilha deserta, certamente a de RACHMANINOV estará no seio dela. Porque é música que se harmoniza com o ritmo das células humanas, criando um sentido de prazer revitalizante. A resistência dos que se julgam doutores em música em reconhecer os méritos de uma parte importante da obra de RACHMANINOV vem sendo vencida pela obstinação do público e dos intérpretes. As performances do próprio autor, executando as suas composições, atraiu a atenção de pianistas importantíssimos como VLADIMIR HOROWITZ, SVIATOSLAV RICHTER, VLADIMIR ASHKENAZY, EVGENE KISSIN, ALEXANDER BRAILOWSKY, PHILIPPE ENTREMONT, ARTHUR RUBINSTEIN, MARTHA ARGERICH, WALTHER GISEKING, FELICJA BLUMENTAL, JORGE BOLET e VAN CLIBURN. Então, a comunicação, aquela centelha mágica que tanto brilhava na cabeça de RACHMANINOV, fez-se presente entre ele e a crescente multidão que aprecia a sua música, com a ajuda de tantos artistas que o amam e compreendem. Eu fico com a sabedoria destes, parodiando EUGENE VON BOHM-BAWERK, economista austríaco contemporâneo de RACHMANINOV: "...a sabedoria tem dúvidas; a ignorância tem certezas"

A primeira obra de sucesso de RACHMANINOV foi o Prelúdio Opus 3 em dó # menor composto aos 19 anos de idade. A segunda delas foi escrita em 1901, o 2º Concerto para Piano e Orquestra Opus 18 em dó menor, que divide com o 1º de Tchaikovsky a preferência do público entre todos os Concertos para piano que já foram escritos até hoje. O seu primeiro Concerto para piano, Opus 1, tinha inúmeros defeitos e a isto é atribuído o fato de ter demorado tanto tempo para escrever outro, que foi dedicado ao dr. DAHL seu psiquiatra. Mas desta segunda tentativa resultou uma avalanche de melodias suntuosas, acamadas sobre uma colcha rendada de harmonias doces e agradáveis. Não são poucos os que preferem esta música a qualquer outra, exceto talvez os próprios intérpretes. Estes, costumam julgar o 3º Concerto, Opus 30 em ré menor, dedicado a JOSEPH HOFFMAN, como a obra definitiva. Não porque ele tenha o maior número de notas escritas para o piano, nem pelo fato de que o papel da orquestra seja o de dar suporte ao trabalho do pianista o tempo inteiro (em TCHAIKOVSKY, solista e orquestra são parceiros), mas pela circunstância de ser realmente melhor música, igualmente inventiva e cheia de desafios técnicos. O 3º Concerto prospecta, desde o inicio, um conflito sonoro de singular aspereza, que se resolve na conclusão, de maneira eloqüente e grandiosa, com a transfiguração do segundo tema do movimento final, à semelhança do que já fizera TCHAIKOVSKY.

A propósito da origem do primeiro tema do 3º Concerto, RACHMANINOV declarou que "não foi inspirado nem nos cantos populares nem nas formas religiosas. Foi simplesmente escrito, só isto...", concluindo que este fato poderia ser atribuído ao domínio do inconsciente!. "A única coisa na qual pensei ao compor este tema foi na sonoridade. Eu queria cantar a melodia no piano como um cantor o faria e queria achar um acompanhamento orquestral que não suplantasse este canto. E isto foi tudo." O piano começa a longa frase deste primeiro tema na nota ré no tempo fraco, repetindo a exposição feita pelo fagote, clarinete, trompa, tímpano e cordas, no que se pode imaginar como o motivo temático de toda a obra, o ré-mi que se repete várias vezes, como uma idéia fixa que atormentasse o compositor. Daí em diante ele não consegue mais livrar-se deste motivo, reaproveitado exaustivamente, modulado e reconstruído até ser finalmente libertado com a chegada do segundo tema. Depois, quando surge a Grande Cadência, (onde o solo do piano predomina) RACHMANINOV põe à prova toda a sua capacidade de criar situações de grande complexidade e todas as possibilidades expressivas do instrumento são expostas. E uma aula inesquecível.

O movimento central, lento, acaba redundando numa valsa, conhecida como trecho da balalayka., de imensa dificuldade técnica. Vamos recordar que este Concerto foi estreado no fim de novembro de 1909 em NOVA YORK, com RACHMANINOV ao piano e foi repetido ainda duas vezes, em janeiro de 1910, sob a regência exigente de GUSTAV MAHLER. O NEW YORK HERALD publicou o seguinte comentário: "O sr. Rachmaninov foi chamado várias vezes pelo público, que lhe pedia uma repetição mas ele levantava as mãos num gesto de aprovação, concluindo que estaria tudo certo se não fosse pelo fato de que os seus dedos é que se recusavam a tocar qualquer coisa a mais naquele momento." Trata-se de um esforço hercúleo tocar esta música. O grande pianista brasileiro ARNALDO ESTRELLA foi quem obrigou a LUIZ CARLOS MOURA CASTRO, seu aluno, a estudar este Concerto, dizendo que se ele não o fizesse naquele instante, jovem ainda e vigoroso, nunca mais teria outra chance.

Dezesseis anos após a estréia, RACHMANINOV comentou com NIKOLAÏ MEDTNER sobre a dificuldade de editar a sua música: "Há três tipos de compositores: 1)- os de música popular, quer dizer, de música para vender; 2)- os de música de ocasião, quer dizer, de música moderna; 3)- enfim, os de música séria, muito séria, categoria na qual nós dois estamos incluídos. Os editores publicam hoje música das duas primeiras categorias por que representam mercadoria de fácil negociação. Mas hesitam em nos produzir. As duas primeiras formas destinam-se a gerar lucros; a última destina-se à alma..."

Curiosamente, o resultado financeiro da publicação do 3º Concerto foi convertido em uma das duas coisas pelas quais se fascinara: um automóvel Lorelei. A outra, era a contratação de ... uma secretária!

Temos que admitir que o lobo temporal direito da maioria das pessoas reage favoravelmente à música de RACHMANINOV. Intuitivamente ele pretendeu que fosse assim, apesar não possuir os dados que hoje dispomos sobre a fisiologia humana. A hierarquia dos sons colocados na pauta do 3º Concerto é obra de grande maestria. Demonstram a capacidade de entender o que a música realmente é: um meio de comunicar às pessoas uma mensagem que não pode ser expressa em palavras. O grande erro da crítica, ao desdenhar o poder de sedução da linguagem musical de RACHMANINOV, reside no fato de desconsiderar este fato: a música não diz a cada um de nós a mesma coisa que um soneto, um discurso político, um noticiário da imprensa ou um ritual religioso, ainda que possa emular, por forçada analogia, situações descritíveis verbalmente. RACHMANINOV trabalhou muito em torno de canções mas ele entendia que o mecanismo da compreensão era diferente e que um podia reforçar o outro.

RACHMANINOV emigrou para os ESTADOS UNIDOS em 1917, às vésperas da implantação do Estado soviético na RÚSSIA. Ele adorava os Estados Unidos, exceto pela vida frenética a que se obrigava ali. Tocou muito, compôs e gravou, foi reconhecido e recompensado. Porém, a terceira obra mais importante da carreira de RACHMANINOV surgiu somente entre 1933 e 1934, quando ele estava envolvido com a construção de Variações em torno de peças de diversos autores. Além das belas Variações sobre um tema de Corelli ele transcreveu MENDELSSOHN, BACH e finalmente PAGANINI. A princípio pretendeu escrever uma Fantasia para piano e orquestra, sob o formato de Concerto. As Variações tomaram forma e surgiram com a denominação de Rapsódia sobre um tema de Paganini Opus 43. Ele compôs 24 variações brilhantes sobre o tema, seguindo a mesma lógica dos 24 Prelúdios de Chopin, na qual se inspirou, O próprio PAGANINI já criara as suas Variações sobre o Capriccio em lá menor; mais tarde SCHUMANN, LISZT, BRAHMS, MILSTEIN, LUTOSLAWSKY, BLACHER e LLOYD WEBBER também o fizeram.

Há quem considere esta obra a mais importante de RACHMANINOV. Aqui ele empreende um retorno à escrita de sua juventude, sem as incríveis mutações polifônicas, a riqueza tonal e o lirismo exacerbado de seus trabalhos recentes. Apesar do aspecto sombrio e de já se notar uma certa carência daquele "accent" russo, tão característico dele, a peça é um primor no que concerne ao equilíbrio. Isto evita o desperdício e a monotonia. A Variação nº 18, que inverte o tema e divide o andamento, consagra de vez o melodismo do autor. Este pequeno extrato acabou tornando-se uma das melodias mais conhecidas em todo o planeta, uma jóia cobiçada, em cima da qual centenas de arranjos e experiências medíocres foram tentadas. A obra estreou em novembro de 1934 em BALTIMORE e se fez adorada pelas platéias de todos os lugares onde foi exibida. Existe nela alguma coisa que tem a capacidade de ofuscar qualquer outra composição que apareça nos programas.